sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Poema de Natal (Sophia de Mello Breyner Andresen)

*



POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Sophia de Mello Breyner Andresen 


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Pela abolição do verbo «acreditar»



Não há qualquer possibilidade de vida humana em sociedade sem confiança.
Eu confio que na minha viagem do Porto a Lisboa, de comboio, este não vai descarrilar. Confio que o avião onde viajo não vai cair e que o piloto sabe o que está a fazer. Confio que o médico que me vê sabe diagnosticar a minha doença e encontrar para ela o melhor tratamento. Confio que o meu inquilino me vai pagar a renda no fim do mês, com cujo produto vou pagar a conta da mercearia que o merceeiro me fiou, confiando que eu sou de confiança.
A confiança é um valor absolutamente fundamental e imprescindível.
Mas a confiança não é cega nem irracional. Ela funda-se na experiência. Eu confio que o comboio não descarrila e o avião não cai, porque é isso que normalmente acontece. Os carris foram montados e os aviões foram construídos por gente que conhece os princípios do carrilamento e do voo. Eu confio no médico, porque ele recebeu formação específica para me tratar. E, se tiver a sanita entupida, já não confio no médico; chamo o picheleiro.
Claro está que, pese embora a minha confiança, o comboio pode, de facto, descarrilar, o avião pode cair, o médico pode matar-me e o meu inquilino pode barricar-se dentro de casa sem me pagar a renda. A confiança não se traduz num critério infalível de certeza matemática na acção, mas num critério de desenvolvimento apenas normal e expectável dos acontecimentos.
E é aqui que a a confiança se afasta da simples fezada, consubstanciada no uso gratuito do verbo «acreditar».
Falível embora, o «confiar» tem um fundamento racional e razoável: a experiência passada, individual e colectiva.
Ao invés, o «acreditar» gratuito não tem fundamento algum. Exprime um mero desejo, uma esperança sem razão que um futuro que não controlamos se realize em conformidade com aquilo que nos convém.
Assim, ao apostar nos números 4, 7, 27, 29 e 32, do euromilhões, por exemplo, ninguém diz: «eu confio que é esta a chave do sorteio». Essa confiança seria absurda. Aquela chave tem tanta probabilidade de sair como qualquer outra. O apostador acredita, sim, por simples fezada cega, que a dita chave vai ganhar. Tem esperança que assim seja; anseia que assim seja. Tem uma fezada, uma crença injustificada e injustificável. Em média, uma vez em cada cem milhões, a fezada corre-lhe bem.
É por isto tudo que é tão preocupante ver os telejornais hoje em dia. Neles – que são o espelho da sociedade em que vivemos – o verbo «acreditar» domina do princípio ao fim. Há um regresso absoluto ao pensamento mágico, pré-racional e mitológico.
Na conferência onde apresenta o último conjunto de medidas de austeridade, recessivas e geradoras de falências crescentes, o ministro das finanças jura acreditar que o desemprego vai começar a decrescer em breve. No jogo que vai disputar com o Barcelona de Guardiola e Messi, o treinador da equipa de quinta categoria, com os seus dois melhores jogadores lesionados, protesta acreditar que o seu clube vai seguir em frente na eliminatória. À porta do hospital onde entrou com a cervical fracturada e metade do cérebro derramado na berma da estrada onde se despistou a duzentos à hora, os fãs do cantor da moda declaram, diante do êxtase orgástico do repórter de serviço, acreditar que o sinistrado se vai salvar e que ainda irão assistir a muitos dos seus concertos.
Todos sabem que, nestes casos todos, o acreditar não tem pés nem cabeça, não traduz qualquer sentimento razoável ou racionalmente fundado e que o expectável é o exacto inverso do acreditado (salvo um milagre que, como explicava Chesterton, por ser milagre, não anda por aí a acontecer por dá cá aquela palha).
Mas, incapazes de controlar o destino e sem meios que lhes permitam, com um mínimo de probabilidade, conduzir os acontecimentos aos resultados desejados, os crentes acreditam que a fezada os salva e depositam supersticiosamente no verbo «acreditar» a força mágica de produzir os efeitos que a confiança não inspira nem pode, com substância, inspirar. Como os nossos primitivos antepassados, com pensamento mágico, pré-lógico, acreditam que, se acreditarem e declararem bem alto acreditar, a sua fezada carregará energias propiciatórias e concitará o favor dos deuses que, contra toda a evidência, lhes prodigalizarão os favores desejados.
E o pior é que estes idiotas com mentalidade das cavernas exibem sempre muito ufanos a sua fezada, como se de uma qualidade moral que os tornasse superiores se tratasse. Têm um orgulho enorme nela e sentem um infinito e arreigado desprezo por aqueles (os cépticos e os pessimistas, como eles com horror e nojo os classificam) que os desmascaram e identificam como aquilo que realmente são: uns idiotas.
E pior de tudo, ainda, é que o paradigma é deles. São eles, os idiotas supersticiosos, os donos do discurso e é o discurso deles que faz hoje o mainstream que conduz por via directa ao poder. Basta ver os anúncios aos produtos bancários do momento, onde tudo é acreditar, tudo é fezada, tudo é engano.
É tempo exigir um retorno à racionalidade. É tempo de expulsar a estupidez do discurso e abolir dele o verbo «acreditar», remetendo de novo o seu uso para o domínio exclusivo da transcendência, da verdade revelada, onde impera, não a fezada, mas a fé esclarecida, acessível não pela enunciação ritual de fórmulas mágicas e supersticiosas, mas pela razão humilde e recta, iluminada pela graça do Espírito Santo.
PS – Acabei de escrever este post por volta das 13:20 h do dia 8 de Maio de 2012. Às 13:22 h ligo a televisão na SIC Notícias. As primeiras palavras que ouço são estas: «Os Estados Unidos acreditam ter impedido um atentado da célula da Al-Qaeda no Iémen…»

António Conceição

Publicado no blogue Funes, el memorioso  (da memória, porque memória é tudo o que não é real.)


domingo, 24 de novembro de 2013

O povo pede desculpa por ainda não ter escolhido a violência (José Manuel Fernandes)


Apesar de tanta gente antecipar a violência popular, o país parece ter descoberto uma sabedoria dos tempos difíceis

Se os tempos fossem outros, o “encontro das esquerdas” promovido ontem por Mário Soares na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa teria sido convocado para um espaço bem mais amplo.

Se os tempos fossem outros, a criação de um novo partido que afirma a ambição de federar as esquerdas não teria decorrido numa sala meio vazia de um cinema de Lisboa. Se os tempos fossem outros, os quase 500 dias de protestos e greves no sector público de transportes já teriam desembocado em múltiplas greves gerais capazes de paralisarem o país e não de ficarem quase só pelas empresas e pelos funcionários do Estado.

Mas então por que é que os tempos não são outros? A acreditar nas previsões dos mais avisados políticos e dos mais ponderados senadores, o país devia estar a ferro e fogo. Pessoas aparentemente tão diferentes como Mário Soares – que há mais de um ano escreve sobre “a violência que aí vem” e esta quarta-feira anunciou que “os portugueses não iam ficar parados” – ou Januário Torgal Ferreira – que entendeu que a melhor forma de criticar o Governo era chamar-lhe “profundamente corrupto” – convergem numa mesma inquietação: o povo está muito parado, muito apático. Talvez por isso, como se cantava noutros tempos, o que seja preciso “é agitar a malta”.

Por outro lado, se olharmos para uma banca de jornais ou nos sentarmos para ouvir um telejornal, o rol de desgraças e malfeitorias é tão interminável que se entende a incompreensão de tantos dos nossos opinadores por os tempos não serem outros. Num país onde tudo é sempre apresentado como mais um cataclismo social, custa a entender por que não surgiu ainda uma moderna Carbonária.

Não sei, ninguém sabe, se o nosso país vai conseguir atravessar estes dias difíceis sem episódios com a gravidade de alguns que já ocorreram noutros países. Nunca se está livre de um episódio, que até pode ser isolado – como foram, esta semana, os tiroteios em Paris –, atear tempestades maiores. Mas julgo sinceramente que não é o cenário mais provável. Mais: isso não decorrerá dos nossos míticos “bons costumes”, antes de existir a percepção, mesmo que difusa e poucas vezes assumida, de que houve um tempo de fartura (relativa) que passou e que agora há um tempo de contenção que durará vários anos e vários governos.



Recentemente, a propósito da fraca afluência à que deveria ter sido a terceira grande manifestação do movimento Que Se Lixe a Troika, não faltou quem culpasse o medo pela ausência das esperadas multidões. Mas medo de quê? Medo do Governo? Não faz sentido. Medo de perder o emprego? Mas quem o perderia por desfilar a um sábado, dia de descanso? Medo do futuro? Sem dúvida. Mas não deveria esse medo do futuro convocar ainda mais manifestantes?

Talvez seja esta última interrogação a mais pertinente. Se há medo do futuro, há talvez ainda mais medo das alternativas aos dias que correm. Até pelo que elas omitem. Tomemos um caso desta semana. Mário Soares entendeu que era chegado o momento não apenas de pedir a demissão do Governo, como a saída do Presidente da República. Não faço ideia, e julgo que ninguém fará, como quereria que se gerisse depois o longo interregno, que duraria muitos meses, de incerteza política e caos institucional. Com um primeiro-ministro tecnocrata? Com um Presidente designado pelas Forças Armadas? E quem negociaria com a troika? Os partidos, cada um por si? E seria que o PS devia ficar de fora, para não legitimar nada? E como iria Portugal conseguir os mais de 20 mil milhões de euros de que necessita para financiar o défice de 2014 e pagar os empréstimos que vencem ao longo do próximo ano? Incumpria, declarando bancarrota?

Ao mesmo tempo, o PS, apesar de alguns esforços para formular uma política mais coerente e de algumas tiradas sobre “responsabilidade orçamental”, praticamente só apresentou na Assembleia propostas de alteração ao Orçamento que fariam aumentar o défice de 2014. É simpático, mas não é suficientemente sólido para que António José Seguro seja levado a sério.

Faço parte dos que sentem – dos que sabem – que “não há dinheiro”, mas já não sou dos que defendem que não há alternativa. Alternativas há sempre, é preciso é saber se são melhores. O que me custa ver em Portugal é pouca gente assumir que todas as alternativas têm também os seus custos. Podemos, por exemplo, defender que há cortes nas despesas do Estado que são intoleráveis – mas então devemos também dizer como fazemos crescer as suas receitas, e não vale falar das quimeras do crescimento económico, pois esse quase desapareceu desde a viragem do milénio e não regressará apenas pondo o Estado a gastar mais dinheiro. Depois de ter comprado tantas ilusões durante tantos anos e tantos ciclos eleitorais, o povo quer mais, não se satisfaz apenas com propostas de acabar com a austeridade – porque não acredita nelas.



Mais do que o medo ou a desconfiança face às alternativas, julgo que a razão principal para a “apatia” que tanto inquieta uma parte dos nossos intelectuais está na consciência de que alguma forma de austeridade – ou de contenção e poupança, se preferirmos as palavras que os alemães usam quando se referem a austeridade – fará parte do nosso destino nos próximos anos.

A forma como os portugueses têm vindo a alterar os seus padrões de consumo ajuda-nos a perceber este novo estado de espírito. Um estudo de mercado muito alargado elaborado no final do ano passado indicava, por exemplo, que havia entre os consumidores aquilo a que os especialistas chamaram um novo “frugalismo”. Não se adica apenas do que não se tem dinheiro para comprar, abdica-se do que se pensa que é supérfluo. Isso acontece tanto nas escolhas feitas nas prateleiras de um hipermercado como no recurso a mercados de bens em segunda mão (como nos sites de leilões). E não corresponde apenas a uma alteração de comportamento, corresponde também a uma nova atitude anticonsumista que é verbalizada nas entrevistas. Isto significa que tais alterações de comportamento não são tão sofridas como se deduziria apenas da leitura muitas vezes alarmista da imprensa e dos fazedores de opinião.

Outro aspecto importante é a forma como os sacrifícios são percepcionados. Por exemplo: fala-se sempre de “cortes nas pensões”, nunca se refere que a maioria esmagadora das pensões não sofreu até hoje nenhum corte pela razão simples de que são demasiado baixas. Outro exemplo: apresenta-se como uma catástrofe social os cortes a partir de 700 euros na administração pública (cortes que também eu lamento profundamente começarem nesse nível salarial), mas esquece-se que metade dos salários no sector privado é inferior a 650 euros, o que significa que esses trabalhadores não se chocam tanto como as elites com os cortes acima dessa fasquia. Mais: até são capazes de achar que assim se repõe alguma equidade.

Como dizia o Herman José, “a vida dos pobrezinhos é um mistério”, e neste país há muito mais rendimentos realmente baixos do que aquilo que a alta classe média imagina. Essa distância ajuda a perceber por que tantos não entendem por que é que o povo ainda não encontrou uma nova Maria da Fonte. Essa distância e a percepção da maioria que, mesmo sendo estes dias difíceis, há alguma coisa que pode perder (o apartamento nos subúrbios, o carro em terceira mão). Ao contrário dos mitológicos proletários de Marx, que só tinham a perder as suas cadeias…

José Manuel Fernandes no jornal Público (22-11-2013)



sábado, 16 de novembro de 2013

"TENTO SEMPRE TER POR DIA TRÊS OU QUATRO HORAS NO SÉCULO XIX"




Na Idade Média, ao longo das suas vidas as pessoas tinham acesso, no máximo, a sete ou oito imagens, pinturas ou representações. Por isso, concentravam a sua atenção durante dias, semanas, meses. Vivemos numa época em que, em dois minutos, vemos mais imagens que os nossos antepassados do século XVI na vida toda. O mesmo acontece com as pessoas. Um europeu da Idade Média se calhar conhecia 50 na vida toda, talvez aquilo que nós conhecemos num mês. Isso faz com que haja, hoje em dia, uma velocidade de consumo de imagens e de pessoas. Se uma imagem não nos salva, há milhares de outras. Com muitas excepções, é muito raro uma pessoa estar duas ou mesmo uma hora seguida concentrada num único objecto. Ou seja, há uma geração que tem muitos estímulos. Estou com curiosidade em saber o que vai acontecer em termos artísticos daqui a 10 ou 20 anos.

Por causa da dispersão?

Ninguém imagina Miguel Ângelo a fazer uma pincelada, depois a responder a um e-mail e voltar outra vez à pintura. Os artistas passavam semanas fechados num compartimento, sem falar com ninguém, só saíam para comprar comida, sem largar o seu objecto. Há obras de arte que só podem aparecer se uma pessoa estiver uma, duas, três, quatro, cinco horas em frente delas, sem mudar a sua atenção para outro lado. E este tempo prolongado com o mesmo objecto, concentrado, é qualquer coisa que as tecnologias e o mundo contemporâneo estão a pertrubar.

Gonçalo M. Tavares, in JL- Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 1125, de 13 a 26 de Novembro de 2013.


domingo, 10 de novembro de 2013

Díez Solís reconoce que la enseñanza del portugués es una “prioridad absoluta” en Extremadura



Díez Solís reconoce que la enseñanza del portugués
es una “prioridad absoluta” en Extremadura

17:06 Sab 9 de Nov de 2013 - Educación y Cultura - Educación

El secretario general de Educación, César Díez Solís, ha inaugurado las VII Jornadas de Língua e Cultura Lusófanas, organizadas por la Asociación del Profesorado de Portugués de Extremadura (APPEX), en las que ha reconocido que, por “razones incuestionables”, la enseñanza del portugués representa una “prioridad absoluta” en la política de fomento del plurilingüismo impulsada por la Consejería de Educación y Cultura.

El secretario general de Educación, César Díez Solís, ha inaugurado las VII Jornadas de Língua e Cultura Lusófanas, organizadas por la Asociación del Profesorado de Portugués de Extremadura (APPEX), en las que ha reconocido que, por “razones incuestionables”, la enseñanza del portugués representa una “prioridad absoluta” en la política de fomento del plurilingüismo impulsada por la Consejería de Educación y Cultura.

“Estamos dando pasos importantes para potenciar el portugués”, ha manifestado Díez Solís, “ya no sólo por la cercanía con Portugal”, sino también por la dimensión que está adquiriendo la lengua lusa en el ámbito internacional con la proyección de países emergentes como Brasil, “que tenemos que tener en cuenta”, ha apostillado.

FOMENTO DEL PORTUGUÉS

Seguidamente, el secretario general ha desgranado las principales actuaciones que la Consejería de Educación y Cultura ha puesto en marcha para fomentar el estudio del portugués, “no sólo entre nuestro alumnado, sino también entre la población en general”, destacando las Escuelas Oficiales de Idiomas y las aulas adscritas a éstas, que imparten portugués entre su oferta educativa.

Asimismo, ha destacado la enseñanza del portugués como segundo idioma en Primaria y tercer idioma en Secundaria en centros educativos de la región, y la creación de tres secciones bilingües de portugués. Además, la oferta se extiende con el Programa de Lengua y Cultura Portuguesa, el Instituto de Lenguas Modernas de la Universidad de Extremadura, y la participación activa de los centros educativos en programas con Portugal como el Proyecto REALCE, “que tan buenos resultados ha dado”, ha matizado Díez Solís.

Por otro lado, también ha felicitado al presidente de APPEX, Jacques Songy, por el programa ‘Falamos portugués’ que emite semanalmente Canal Extremadura, dado que supone un “paso más” en la enseñanza de este idioma, a través de divertidos y amenos programas de televisión sobre lengua y cultura portuguesa.

RINCÓN DIDÁCTICO DE PORTUGUÉS

Además, Díez Solís ha anunciado la puesta en marcha de un nuevo portal para el aprendizaje del portugués, denominado ‘Rincón didáctico de Portugués’, que será el “embrión” de un banco de recursos disponibles en la red.

En este sentido, y para que este banco de recursos crezca y se complete, ha pedido la colaboración de los docentes porque “con vuestra experiencia y conocimiento” será un repositorio “fuerte” de contenidos educativos digitales, reconociendo que “nada de esto sería posible sin vuestra colaboración”.

En la inauguración, Díez Solís ha estado acompañado del alcalde de Almendralejo, José García Lobato; la directora del CPR de Almendralejo, Rosa Blázquez Matías; la representante del Camões y del Centro de Língua Portuguesa de Cáceres, Raquel Gafanha; y el presidente de APPEX, Jacques Songy.



(Fonte: Sala de Prensa - Gobierno de Extremadura)






domingo (Marta Lança)




domingo

Domingo, epicentro de Lisboa, Café Gelo, a ver-se o manuelino da estação de comboios do rossio, leio o jornal onde averiguam do grau de patriotismo dos jovens portugueses, e a crónica da alexandra que lembra como Lisboa se reinventa e as raparigas e rapazes são os mais bonitos do planeta.
Bocejo, e nas colunas do café a melodia... tristeza não tem fim.
Em casa varro o chão da cozinha e lavo a louça, continuamente desalinhadas estas divisões com adultos agitados que, alminhas inquietas, acordam sucessivamente de ressaca e repetem estórias mirabolantes da noite anterior construindo um património universal da boémia.
A chuva vem sedimentando poeiras existenciais e a nostalgia da baixa verte por cima dos telhados.
(mete um certo nojo)
Os turistas atarantados numa páscoa pré-época alta da marroquinização de Lisboa.
Festas trágicas no que trazem de espelho, da família que se já não tem ou mudou e, nisso, acartou incertezas, de como projectar a vida nas próximas décadas, de como não perder a curiosidade, garantir a generosidade para o acontecimento.
Como é bom tê-la pela frente, seja como for que se apresente é o que dela conseguir fazer.
Um longo inverno a ver filmes online no quentinho do sofá.
Porém, não se trata de apatia alguma, andam coisas a vibrar, as pessoas dão ideias, discutem, embebedam-se felizes ou de coração partido, mas celebram alegrias e desencontros juntos, fazem declarações de amor ou de admiração, metem-se em negócios perdulários, julgam-se ideologicamente como bons polícias do quotidiano, mandam-se para o caralho e regressam sem mágoas.
A viagem prossegue, estamos elementarmente a segui-la. E a crescer.
Pudera eu fazer justiça a esta liberdade.

Marta Lança


(Publicado a 24 de abril de 2013 no seu blogue A vida escrita)






quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Dois poemas de Drummond no dia dele



Participação da atriz Fernanda Torres no vídeo do Instituto Moreira Salles em homenagem a Carlos Drummond de Andrade.

Há varios anos que no Brasil recordam neste dia Drummond de Andrade, por ele ter nascido no dia 31 de outubro de 1902, é o Dia D, o Dia Drummond.


NECROLÓGIO DOS DESILUDIDOS DO AMOR

Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.

Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia...

Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).

Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.


Do livro Brejo das almas, Belo Horizonte, 1934





POEMA DE SETE FACES
 
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Do seu primeiro livro,  Alguma poesia (1930)






quinta-feira, 17 de outubro de 2013

VII Jornadas da APPEX - Dia 9 de novembro em Almendralejo



No próximo dia 9 de novembro, celebram-se em Almendralejo (Badajoz) as VII Jornadas de Língua e Cultura Lusófonas, que decorrerão no Centro Cívico dessa vila.

Eis o programa:

SÁBADO, 9 de novembro de 2013

9:30h – Receção dos participantes e entrega da documentação.

10:00h – Inauguração das Jornadas.

10:30h – Paco López – Plataformas online para as aulas de Português na Extremadura

12:00h – Intervalo para café.

12:30h – Conferência Jacques Songy – Os diferentes sotaques brasileiros.

13:30h – Materiais didáticos com recursos brasileiros.

14:00h – Almoço convívio.

17:00h – Workshop – Amazonas: a capoeira Brasileira

19:00h – Encerramento e apresentação de conclusões. Assembleia da APPEX.

A Jornada será certificada pelo CPR de Almendralejo pelo que a Direção da APPEX sugere que os interessados se inscrevam online na página do CPR. Aqueles que não se inscreverem pelo CPR, podem fazê-lo pela APPEX, enviando a ficha de inscrição em baixo para appex.dir[arroba]gmail.com 



VII JORNADAS
DE LENGUA PORTUGUESA Y CULTURA LUSÓFONA
DE LÍNGUA PORTUGUESA E CULTURA LUSÓFONA

Sábado, 9 de noviembre / novembro de 2013


FICHA DE INSCRIPCIÓN / FICHA DE INSCRIÇÃO


Nombre y apellidos / Nome e apelidos: ___________________________________

_________________________________________________________________

Dirección / Endereço: _____________________________________________________________

__________________________________________________________________________________

Teléfono / Telefone: _____________ E-mail: ______________________________

Profesión / Profissão: ________________________________________________



□ Asistiré a la comida* / Assistirei ao almoço*

* El precio de la comida se pagará en el momento de la entrega de la documentación. / O preço do almoço será pago no momento da entrega da documentação. (12€ - precio / preço estimado)


Cumplimentar y enviar a / Preencher e enviar a appex.dir[arroba]gmail.com







segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Duas mensagens do blogue 'Espírito de contradição'



Como é terrível, por vezes, o humor negro! Achámos isto no blogue Espírito de contradição. Também o breve texto em baixo. Foi publicado em abril, mas tanto faz, e se calhar até serve para a nossa Espanha...


Este país não é para ninguém
Posted on 11 de Abril de 2013 por Joaquim Ribeiro

Em tempo de crise é incrível a “chico-espertice” de alguns portugueses. Aproveitando a elevada taxa de desemprego, algumas empresas propõem contratar jovens sem qualquer salário em troca. Será que não percebem que trabalhar sem receber é pior do que não trabalhar? Será que não entendem que a malta não quer emprego para estar ocupada, mas sim porque precisa de dinheiro para viver?

Blogue Espírito de contradição



domingo, 29 de setembro de 2013

Dever cívico no dia de hoje



Infelizmente, até dá para ser assim. 

Dever cívico é o título deste cartoon de Henrique Monteiro.









António Manuel Couto Viana e Álvaro de Campos




CAFÉ DE SUBÚRBIO (24)

Ao chegar hoje à esquina das manhãs do olhar,
Vejo o café fechado,
Sem uma cruz piedosa a anunciar
Que morreu traspassado.
Renasce em snack-bar?
Em sucursal de banco? Ou em supermercado?

Onde esgotar, agora, as preguiças do dia?
Onde achar nova asa a expandir-se no voo?
Onde dar de beber à poesia
Mais decifrável do que sou?
O Álvaro de Campos certamente diria:
– Desde hoje o subúrbio mudou!

António Manuel Couto Viana
(1923 – 2010)

As escadas não têm degraus, nº4
(Cotovia, 1991)



Cruz na porta da tabacaria!

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria.
Desde ontem a cidade mudou.

(14-10-1930)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Morreu o poeta António Ramos Rosa



Morreu esta segunda-feira em Lisboa, aos 88 anos, o poeta e ensaísta António Ramos Rosa, um dos nomes cimeiros da literatura portuguesa contemporânea, autor de quase uma centena de títulos, de O Grito Claro (1958), a sua célebre obra de estreia, até Em Torno do Imponderável, um belo livro de poemas breves publicado em 2012. Exemplo de uma entrega radical à escrita, como talvez não haja outro na poesia portuguesa contemporânea, Ramos Rosa morreu por volta das 13h30 desta segunda-feira, em consequência de uma infecção respiratória, em Lisboa, no Hospital Egas Moniz.
 
A notícia completa no Público


Nascimento último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.


Mais poemas de Ramos Rosa




domingo, 1 de setembro de 2013

Casa Museu José Régio em Portalegre



A Casa-Museu José Régio em Portalegre foi instalada naquela que foi a habitação de José Régio durante 34 anos.

Quando José Régio foi colocado no Liceu Mouzinho da Silveira, em Portalegre, na casa funcionava uma pensão, onde se hospedou.

Data dos finais do século XVII e terá sido um anexo do convento de S. Brás, do qual ainda existem alguns vestígios, nomeadamente da capela. Também serviu como quartel-general aquando das guerras peninsulares e muito mais tarde pensão 21.

José Régio alugou um humilde quarto e à medida que a necessidade de espaço aumentava com a ampliação constante da sua colecção, ia alugando as outras dependências da casa, até que se transformou em hóspede único.

Em 1965 vende a sua colecção à Câmara Municipal de Portalegre com a condição desta adquirir a casa, restaurar e transformar em Museu. Ficaria com o usufruto e só à sua morte este passaria para a Câmara. Tal não aconteceu, pois José Régio morre a 22 de Dezembro de 1969 e o Museu só veio a abrir a 23 de Maio de 1971.

COLECÇÕES
As colecções estão distribuídas por 17 salas de exposição permanente e por uma sala de reservas, em dois pisos.

COLECÇÕES EXPOSTAS:
- escultura
- pintura
- faiança
- mobiliário
- metais
- têxteis
- registos


RESERVA:
- escultura
- faiança
- numismática/medalhística
- registos
- trabalhos pastoris (marcadores de pão e bolos, cornas, polvorinhos, chavelhas e colheres)
- Ferros forjados

Além deste espólio, a Casa-Museu possui um variado acervo literário dividido entre a própria casa, as reservas e o centro de estudos. Este espólio resultou do gosto, de José Régio, pelas antiguidades pelo coleccionismo que segundo diz, nasceu-lhe cedo por influência do seu avô. Mas foi no Alentejo que se ampliou e desenvolveu. A região era fértil e rapidamente se espalhou que havia um professor de Liceu que gostava e comprava coisas velhas. Começou por ser um passatempo, uma mania, mas depressa se transforma numa actividade regular, num vício.

Compra, vende e troca. Tinha épocas. A dos pratos: os "ratinhos" - uma faiança popular de Coimbra, trazida por migrantes que vinham ceifar ao Alentejo e no final das fegas os trocavam por roupas e tecidos, os de Estremoz, de Miragaia, de Fervença...

Os estanhos, os cobres, e na cozinha os ferros forjados e outras curiosidades do artesanato alentejano - marcadores de pão e bolos, as pintadeiras, dedeiras ou canudos e os trabalhos em chifre como as cornas e os polvorinhos.

E não podemos deixar de referir a colecção de arte sacra. Os Cristos, a sua grande colecção, nas mais diversas apresentações e representações são, essencialmente, em madeira e de arte popular. Feitos por quem tinha um certo jeito, faziam parte do enxoval das noivas, em tempos idos no Alentejo!



domingo, 18 de agosto de 2013

Magia 'okupa' en la fábrica de metralletas



Un profesor de Filosofía reconvierte una factoría deseada por inmobiliarias en un activo centro cultural en Lisboa


Pasen y vean la extraña historia de un profesor de Filosofía pura, con aire de Javier Krahe aunque más gordo, devoto de Nietzsche y troskista de los de entonces, que ha acabado, por azares del destino majareta y de Lisboa y sus cosas, al frente del espacio cultural más alternativo de la ciudad. También de cómo un experto en Gilles Deleuze sin mucha experiencia con el taladro transformó, en siete días, como Dios (la frase es de él), las mastodónticas y hermosas dependencias administrativas de una vieja y abandonada fábrica de metralletas en un conjunto de locales de conciertos, de bares, de talleres de danza maorí o meditación budista, de cines de películas raras o menos raras o de salas de exposiciones que acogen, por ejemplo, colecciones de Barbies fetichistas. También de la sala de jazz con el piano de sonido más puro de todo Lisboa, según los músicos que lo disfrutan. También de una librería inagotable.

Todo esto, además, ilegalmente, como un okupa, gracias a una licencia municipal provisional de puesto callejero que habilita solo para servir sardinas y cervezas durante la semana de fiestas populares de Santo António.

El profesor se llama Nuno Nabais y la fábrica, Braço de Prata. Se encuentra en una zona medio abandonada de la ciudad, llena de factorías que se deshacen y de calles portuarias y vacías que dan a la ribera del Tajo más salvaje, entre las moderneces de la Expo 98 y la vieja estación de trenes de Santa Apolónia. Un resumen decadente de la ya de por sí decadente Lisboa. Quiten decadente y pongan encantadora y también vale.

El nombre procede de un militar, propietario de los terrenos en el siglo XVIII, que llevaba una prótesis de plata en vez de brazo derecho, volatilizado en alguna desgracia castrense. La fábrica cuenta con dos plantas, vestíbulos de suelos ajedrezados, una escalinata de otra época y un patio del tamaño de un aparcamiento de hipermercado de Wisconsin en el que Nabais, siempre atento, instaló, hace tiempo, una auténtica carpa de circo que resistió a la intemperie dos años antes de pudrirse.

La producción de armas comenzó a principios del siglo XX. Los talleres de la fábrica Braço de Prata habilitados alrededor del edificio administrativo llegaron a albergar, en algunas épocas, cerca de 12.000 obreros. Algunas veces, en un régimen de terror. Esto último lo sabe Nabais porque hay tardes en que se acercan por ahí viejos obreros que le cuentan que los operarios díscolos durante el régimen siniestro de Salazar desparecían sin ser vistos nunca jamás. En 1990 se cerraron definitivamente todos los edificios. Mientras, la ciudad crecía hacia el este, impulsada por el estirón urbanístico de la Expo. Los tiburones inmobiliarios olfatearon pronto el dinero. La inmobiliaria Obriverca concibió una urbanización exclusiva diseñada por el mismísimo Renzo Piano. Corrían buenos tiempos. Los números eran mareantes: 20.000 pisos de cerca de un millón de euros levantados en lugar de los talleres, ya demolidos. El edificio administrativo, parcialmente protegido por su diseño arquitectónico, y el patio, a cambio de la recalificación correspondiente, quedarían en manos del Ayuntamiento. Pero la crisis paralizó el proyecto en 2007. Y así sigue.

La futurista urbanización de ensueño es ahora un enorme agujero del tamaño de una laguna lleno de agua salobre al lado de un inmenso esqueleto de vigas, hierros y cemento que sirve de metáfora viva del Portugal contemporáneo de la troika. Desde las ventanas de las salas de exposiciones se ve la melancólica laguna y en verano se oyen las ranas.

Fue en 2007, aprovechando el parón urbanístico, cuando Nabais, algo harto de su trabajo de profesor, con experiencia en gestionar librerías alternativas de éxito y dispuesto a dinamizar culturalmente la ciudad, llegó a un sorprendente acuerdo con la inmobiliaria, ya mordida por las deudas: el profesor se comprometía a hacerse cargo del mantenimiento del edificio sin pagar un euro de alquiler, como un okupa consentido.

A cambio, dejó por escrito que se largaría en menos de un mes si las obras de los pisos proyectados al otro lado de la carretera, en los terrenos de los antiguos talleres, se volvían a poner en marcha. Llamó a una cincuentena de antiguos alumnos suyos manitas de Filosofía y apeló a sus amigos arquitectos para que colaboraran. En esos siete días frenéticos parecidos al Génesis supieron devolverle la vida a la vieja fábrica. La esquelética licencia de las sardinas y la certeza algo suicida de Nabais de que si uno hace una buena cosa aunque sea ilegal eso tira para adelante hicieron el resto y la fábrica Braço de Prata colocó ese rincón muerto de la adormecida Lisboa en la modernidad.

Han pasado cinco años, más de 400 exposiciones y centenares de conciertos desde entonces. Entre medias, la inmobiliaria quebró y la fábrica y los terrenos edificables pasaron a pertenecer a un banco que de vez en cuando envía hipotéticos compradores chinos, angoleños o norteamericanos que llegan, observan, miden y luego se largan mientras Nuno Nabais los mira de reojo sentado a la fresca en el patio de la carpa de circo. De vez en cuando, también llegan inspectores de sanidad y ponen multas por servir bebidas sin la licencia pertinente que Nabais paga con una resignación fatalista digna de algún filósofo de primero de carrera. “Desventajas de ser ilegal”, explica.

Nabais, que en este tiempo dejó de publicar libros, se volvió a casar con una mujer joven, tuvo una hija 10 años menor que su nieta, asegura que hacerse cargo de ese edificio inmenso es, simplemente, un gesto filosófico. Hubo noches gloriosas en las que la fábrica Braço de Prata reunió a cerca de 800 personas. Los músicos se llevan lo recaudado de las entradas (cinco euros por cabeza) y se lo reparten escrupulosamente, según las reglas indiscutibles de Nabais. Lo bueno es que no pagan IVA. “Ventajas de ser ilegal”, dice. Empezó él gestionándolo todo. Ahora ya son 12 empleados. Asegura que el alcalde de Lisboa, el socialista António Costa, le anima a resistir, a pesar de la ilegalidad, los inspectores y las amenazas sordas de los compradores de los maletines. Algo me dice que, además, le ayuda el mismísimo Santo António, el dueño de la licencia de matute y las sardinas, el patrón de esta ciudad-paradoja llamada Lisboa.


Artículo de Antonio Jiménez Barca (El País, 18-8-2013)



segunda-feira, 10 de junho de 2013

Não tiveram nem paradas militares, nem Presidentes da República, nem entrega de comendas, mas foi assim que se celebrou o “Dia de Portugal, Camões e das Comunidades” em Valencia de Alcántara!


Não tiveram nem paradas
militares, nem Presidentes da República, nem entrega de comendas, mas foi assim
que se celebrou o “Dia de Portugal, Camões e das Comunidades” em Valencia de
Alcántara! A “comenda” nesta terra raiana foi a estima e o apreço pela língua e
cultura de Camões por parte de uma povoação que conta com séculos de diplomacia
local comum - algo ímpar na história europeia e digno de salientar-, já que
Marvão e Valencia de Alcántara assinaram, há 700 anos, o primeiro documento de “relações
transfronteiriças” entre as duas localidades, bem alheios ao centralismo
lisboeta ou madrileno.

Tratou-se de um evento
dinamizado pelo IES Loustau-Valverde e pela autarquia da mesma localidade, que
contou com a presença do Sr. Director do IES Loustau-Valverde, Francisco Avis,
o Sr. Alcaide de Valencia de Alcántara, Pablo Carilho, o Sr. Presidente da
Câmara Municipal de Marvão, Victor Frutuoso e o Prof. Luís Leal do Departamento
de Português do IES Loustau-Valverde e membro da APPEX.

Apesar da presença
institucional, o grande destaque foi para os alunos da disciplina de português
do referido centro educativo, principalmente os intervenientes directos no
projecto educativo REALCE, e para a apresentação pública à comunidade de
Valencia de Alcántara da revista “Cortiza” (uma homenagem que justamente esta
escola secundária faz à cultura e língua portuguesa através do nome claramente
inspirado no vocábulo português “cortiça”).

O mesmo evento também contou
com a participação do canta-autor Jorge Carnerero que brindou a assistência com
um original seu (dedicado aos tempos do contrabando) e uma emocionada versão de
“Grândola Vila-Morena” de José Afonso.

A comissão organizadora deste
evento recorreu, novamente, a este material de árvore, a cortiça, tão enraizado
(e nunca melhor dito) na região estremenha e alentejana, como elemento fraterno
entre Espanha e Portugal, especialmente agora que partilham estes duros tempos,
esperando, desta forma, que sirva para entrelaçar os ramos de “alcornoques” e
sobreiros e assim dar sombra aos filhos destas terras, e aos filhos dos filhos
que, ao mesmo tempo, amando a sua diversidade, os protejam a todos.






terça-feira, 14 de maio de 2013

Chico Buarque fala sobre o racismo, sobre seu neto e a hipocrisia


Chico Buarque fala sobre o racismo, sobre seu neto e a hipocrisia 

Chico Buarque comenta o racismo claro ou dissimulado de boa parte dos brasileiros. Ri daqueles que insistem em ignorar os séculos de miscigenação em nosso país. Em seu depoimento, Chico fala de sua revolta ao descobrir que sua filha, casada com o músico Carlinhos Brown, foi forçada a se mudar em razão das agressões que seu filho, neto de Chico, sofria dos moradores. Às vezes, quando ouço pessoas falando de sua genealogia — que sempre evitam suas linhagens não brancas, respondo que tenho pedigree. É que só se encontra portugueses em meu passado. Só que minha árvore genealógica é muito incompleta, muito curta, é dessas que logo se perdem, mesmo que eu tenha cidadania portuguesa adquirida em razão de ter avós portugueses por parte de pai. Aliás, os portugueses nunca se miscigenaram… Daqueles 128 citados por Chico — 4 avós, 8 bisavós, 16…, etc. — deve haver um monte de não brancos. Imagina se não há negros e índios dentre eles? Minha mãe era chamada de índia por seus pais… E os 128 estiveram por aí não faz muito tempo. 

Com a palavra, Chico Buarque. Vale a pena ouvir.

Milton Ribeiro (12 de maio de 2013)



domingo, 12 de maio de 2013

100 RAZÕES PARA TE MANTERES VIVO




1 uma noite bem dormida
2 o teu amor abraçar-te enquanto sonha a teu lado
3 o sorriso das filhas
4 o sol a pôr-se por detrás do horizonte
5 as gaivotas que voam em terra quando um homem se põe a pensar
6 uma mesa de amigos
7 com bom vinho a regar a conversa
8 aquele alívio matinal que regulariza as funções do corpo
9 e deitares-te na banheira enquanto a água sobe
10 sobe sobe até ficares submerso
11 ateares o fogo na lareira numa noite de Inverno
12 um chouriço assado
13 mergulhares na água salgada de Verão
14 andar a pé
15 ou simplesmente caminhar, subindo e descendo
16 arribas, falésias, montes, serras
17 o som dos passos enquanto caminhas
18 e a flora à volta dos teus passos
19 pássaros, grilos, cigarras
20 as queimadas no Outono, pão lêvedo das Furnas barrado com queijo da serra
21 o primeiro cheiro da lenha a arder pairando no ar
22 rosmaninho
23 reencontrar um amigo que julgávamos perdido
24 rir
25 dançar
26 ou rir e dançar ao mesmo tempo
27 chorar, também, que atenua a dor
28 um bom western
29 um bom filme, os tomates do Rogil
30 os livros, sobretudo aqueles que ainda não leste
31 e aquela frase
32 uma brisa ligeira no coração da canícula
33 viajar
34 as miragens no deserto
35 uma aurora boreal
36 estrelas cadentes
37 livros antigos e cartas escritas à mão
38 os álbuns de família em sépia
39 tigres de Bengala, gorilas do Congo
40 e todos os animais selvagens em vias de extinção
41 a Floresta Amazónia, o Grand Canyon, as Cataratas do Niágara
42 essa ideia de Tibete que urge preservar
43 Mandela e o mantra entoado pelo corpo do Lama
44 o hino nacional entoado pela selecção de rugby
45 uma boa peça de fruta
46 um café e um cigarro
47 bagaço
48 um velho que te conta uma história
49 uma criança que te faz uma pergunta inusitada
50 poderes ignorar os teus inimigos e desprezar seu mau olhado
51 andar ao acaso numa cidade e vislumbrar o que sempre passa despercebido
52 abraçar calorosamente quem amamos
53 a paixão quando menos se espera
54 e o desejo satisfeito sem horas nem horários
55 massagem ayurvédica
56 a chamada das mesquitas nas cidades árabes
57 mercados árabes, bazares e as Festas do Povo em Campo Maior
58 aprender a montar
59 pescar
60 consolar os ouvidos com o silêncio
61 e espantares-te, de vez em quando, com um feito humano (o Vale do Coa)
62 ouvir alguém pronunciar o teu nome com gratidão
63 o mundo sem fim da poesia
64 mitologia grega
65 hermetismo árabe
66 o terrorismo poético de Hakim Bey, o nomadismo intelectual de Kenneth White e o hedonismo libertário de Michel Onfray  iluminados pela candeia de Diógenes de Sínope
67 mas sobretudo os livros de Bruce Chatwin, Albert Camus, Henry David Thoreau e Michaux, Malcolm Lowry, Stevenson e Melville
68 os poetas irlandeses
69 Rimbaud, Baudelaire, surrealismo a conta-gotas, o dadaísmo, todo o Duchamp
70 e o teatro da crueldade de Antonin Artaud
71 as canções do José Afonso e a guitarra do Carlos Paredes
72 a voz de Amália
73 entre outras (Umm Kulthum ou Nusrat Fateh Ali Khan)
74 e andar por aí a esmo respigando o maná das musas
75 Nicanor Parra, Vicente Huidobro (a sua história de amor)
76 os quadros de Van Gogh e as Pirâmides de Gizê
77 música brasileira, mais que todas a bossa nova
78 jazz norte-americano, o silêncio na Ordem dos Cartuxos
79 ia-me esquecendo de Walt Whitman
80 e a poeira levantando-se na estrada larga
81 enquanto uma lufada de vento nos inclina o corpo
82 deixando-nos impotentes à sua passagem
83 uma fogueira ateada
84 um índio que canta
85 tambores africanos
86 o didjeridu dos aborígenes
87 e alguém que te dá a ler Jean-Marie Le Clézio
88 quebrares o gelo, afagares a pedra
89 saberes estar calado quando o silêncio é devido
90 contar carneiros pelos dedos
91 tocar Era um Redondo Vocábulo na guitarra
92 sentindo cada nota como uma batida do coração
93 partilhar
94 e falar com os mortos numa linguagem muito nossa
95 enquanto a ideia de Deus ganha forma numa paisagem admirável
96 matar a sede numa fonte de água pura
97 colher fruta pelo caminho
98 semear qualquer coisa de nosso
99 para que outros possam colher
100 chegar a este ponto com a sensação de que facilmente enunciaria mais
101 razões para continuar


hmbf no seu blogue antologia do esquecimento



quarta-feira, 3 de abril de 2013

“O Bilinguismo, uma Mais-Valia no Poder Local” (Bachillerato de Português do IES Loustau-Valverde entrevista D. Pablo Carrilho, Alcaide de Valencia de Alcántara).


No passado dia 3 de Abril, o Presidente da Câmara de Valencia de Alcántara, D. Pablo Carilho, recebeu os alunos de língua portuguesa do 1º e 2º Bachillerato da escola secundária da mesma localidade.
Durante uma hora, os alunos entrevistaram o autarca, para uma futura publicação na revista “Cortiza”, abordando variadíssimos assuntos e temáticas que foram desde a sua formação académica, a sua infância e juventude portuguesa, o poder local raiano, até uma possível candidatura da “raia” a Património da Humanidade da UNESCO. Tudo isto na língua de Camões, dado que o alcaide é totalmente bilingue, falando um português correctíssimo e de todos alvo de elogio.
O saldo desta iniciativa é deveras positivo, esperando-se que, de este encontro informal, mas efectivamente simbólico, a comunidade de Valencia de Alcántara e a comunidade educativa do IES Loustau-Valverde, possam encontrar ainda mais referentes e argumentos para cooperação transfronteiriça e promoção e valorização deste espaço comum, e uma riqueza (por vezes demasiado óbvia que cai em esquecimento) que Espanha e Portugal partilham: a “Raia”. Uma “raia” com um nobre passado, um presente notável e um futuro que tem ser assegurado por todos nós. 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Primeiro número da revista 'Granta' portuguesa terá inéditos de Fernando Pessoa



O director Carlos Vaz Marques quer publicar um inédito de um autor desaparecido por cada número, mas a própria revista encomendará textos a autores de língua portuguesa.


O primeiro número da edição portuguesa da revista literária Granta, que sairá em Maio, irá publicar inéditos de Fernando Pessoa, disse esta sexta-feira à Lusa o jornalista Carlos Vaz Marques, que a dirige.

A publicação de cinco sonetos de Fernando Pessoa, apresentados pelos investigadores pessoanos Jerónimo Pizarro e Carlos Pitella-Leite, insere-se no primeiro objectivo da revista, que “é o de publicar bons textos literários inéditos”, disse Carlos Vaz Marques.

Referindo-se à publicação dos sonetos de Pessoa, Vaz Marques afirmou tratar-se de “uma revelação absoluta” que “já justificaria, por si só, este primeiro número da edição portuguesa da Granta”. Segundo o responsável, há o interesse em publicar um inédito de um autor desaparecido por cada número, mas a própria revista encomendará textos a autores de língua portuguesa.

“Sabemos que uma parte importante do trabalho literário surge, muitas vezes, de estímulos externos, e pretendemos ser essa centelha que acende o rastilho de autores com talento e coisas para dizer”, disse. Um outro objectivo da revista, que terá periodicidade semestral, “é o de publicar em português os textos de grandes escritores, escritos para a Granta de língua inglesa, e nunca editados em Portugal”. (...)

A notícia completa aqui: Público.


domingo, 3 de março de 2013

O grande silêncio

Fotografia de Paulo Pimenta (Público)


O grande silêncio

This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.

TS Eliot

Estive em ambas as manifestações “inorgânicas” que se realizaram a 15 de Setembro e 2 de Março, embora um pouco menos tempo nesta última, limitando-me, por falta de disponibilidade para mais, a descer a avenida, não chegando ao Terreiro do Paço para cantar o tema que serviu de mote à brilhante campanha de marketing da organização.

E sim, a deste ultimo Sábado teve menos gente, o que é natural tendo em conta que não havia um foco específico a combater, como a TSU tão desastradamente comunicada por Passos Coelho em Setembro. E se calhar o tempo estava mais frio. Ou o percurso não era tão aliciante. Ou o metro estava cheio. Ou qualquer outra coisa.

De qualquer maneira, acho que isso talvez seja até um ponto a favor. Tendo em conta que os objectivos desta manifestação eram muito mais difusos (“que se lixe a Troika” continua a ser um slogan tonto), esteve muita gente, muita gente mesmo. E encher uma avenida com um protesto difuso, sem ser num dos dias simbólicos, sem organização profissional tipo CGTP e, mais importante, sem frota de autocarros, é a meu ver impressionante.

Podem ter aparecido menos que nem Setembro. Mas apareceram muitos.

Mas não foram os números, nem os motivos, que mais me impressionaram nesta manifestação. Esta manifestação impressionou-me sobretudo pelo que estava ausente em relação à outra. E o que estava ausente pode ser definido num conceito simples: alegria.

Salve algum, fraco, esforço por parte de alguns activistas, não havia grande palavras de ordem, nem cânticos, nem barulho de panelas, nem slogans memoráveis. Nada. O que me deu por vezes a impressão de estar não numa manifestação, mas num cortejo fúnebre. Houve realmente alturas em que o som que mais se destacava era o do helicóptero. Tudo o resto, tirando o burburinho de fundo, era um impressionante silêncio. Ou, usando um velho cliché que aqui se aplica perfeitamente, um ensurdecedor silêncio.

E no entanto, tendo pouco para dizer ou berrar, milhares apareceram. Como explicar isto?

Há tristeza nas pessoas? Há, com certeza. Desespero? Também. Mas a ideia com que fico é que há sobretudo uma grande falta de fé no futuro, uma falta de respostas para aquilo que as preocupa. Sabem que não querem isto, mas lutam pelo quê, exactamente? Qual é a alternativa? “Que se lixe a Troika”? Onde é que está a esperança que elas merecem?

Lutar contra isto? Sim, claro, foi por isso que apareceram. Mas lutar pelo quê, exactamente? O lado negativo está lá. E o positivo, está onde?

A manifestação de 15 de Setembro foi um aviso ao governo que não valia tudo, que estava a ir longe demais. Na de 2 de Março vi algo diferente. O protesto das pessoas foi dirigido ao governo. Mas o silêncio, creio eu, foi dirigido à oposição. Uns já sabemos que não ouvem. Os outros fariam bem em ter as orelhas no ar.


Lido em Aspirina B (Não mata mas alivia)



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Bianda - Língua materna vs Língua madrasta


Não haverá desenvolvimento verdadeiro sem o desenvolvimento da língua materna, ponto! Exercício diário, vulgo TPC (Trabalho Para Casa) que desde a minha infância são meros cumprimentos de obrigação, em vez de serem entusiasmantes prolongamentos dos ensinamentos nas aulas. E continua. Sempre me angustiou essas questões. Como uma filha a crescer rapidamente, para além da angústia vem-me a revolta. Vejam só este enunciado:

"Ao número anterior, adiciona uma unidade ao algarismo das dezenas e de seguida subtrai um unidade ao algarismo das unidades. Ao número obtido, faz a soma dos dois algarismos. O que verificas?"

Agora adivinhem de que ano escolar estamos a falar...A 3ª classe, o ano em que a minha filha de 7 anos frequenta! E como ela lida com isso? Mal, claro! Porquê? Por causa da língua, caraças!! Como descascamos esse ananás? É assim: antes de resolver o exercício de matemática, sento-me com ela a resolver o problema da língua. Pergunto-lhe, percebeste o que o texto quer dizer? Não. Então vamos por partes, lê um pedaço de frase de cada vez e explica ao papá em crioulo o que quer dizer. Assim, continua. Agora lê a frase toda e liga as ideias. Consegues agora perceber a frase? Sim! Ótimo. Pronto, agora que percebeste a frase, vamos lá resolver o problema da matemática. Qual é o algarismo das unidades? Boa! E qual é o das dezenas? Continua, agora adiciona-os. Pronto!

Esta novelinha acontece com todas as disciplinas, inclusive a disciplina de Língua Portuguesa. Raciocinar na língua materna e fazer a tradução, no sentido de compreender e no sentido de escrever a o resultado. Agora ponho a questão: e os milhares de meninos que sequer têm uma família coesa, quanto mais pais pacientes e com um pouco de metodologia para desembrulhar essa complicação do sistema? Pois, produzir meninos estúpidos ao 12º está plenamente explicado.


Publicado no blogue Bianda


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O sentimento dum ocidental (Cesário Verde)



O Sentimento dum Ocidental


I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!



II

Noite Fechada

Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de <>!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.




IV

Ao gás

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

«Dó da miséria!... Compaixão de mim!...»
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!



III

Horas mortas

O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

Cesário Verde (1880)