terça-feira, 2 de abril de 2019

Maria do Rosário Pedreira na Aula de Poesía 'Enrique Díez-Canedo'


Em novembro anunciámos a presença no dia 4 de abril da poeta portuguesa Maria do Rosário Pedreira na Aula de Poesía Enrique Díez-Canedo, de Badajoz. Bem, finalmente chegou abril, e depois de amanhã é o dia. Por enquanto, estes dois poemas.

Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira

In O Canto do Vento nos Ciprestes (2001)

En lyrikline.org podemos ouvir a autora ler este poema.

Fotografia de Aurélio Vasques

Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.


Nenhum Nome Depois (2004)


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Maria do Rosário Pedreira na Aula Diez-Canedo em abril



Ainda falta tempo para abril, mas no dia 4 desse mês Maria do Rosário Pedreira lerá os seus versos na Aula de Poesía Díez-Canedo, em Badajoz. Ela é editora (nomeadamente, é a responsável editorial do grupo Leya), escritora, poeta e já escreveu letras para cantores como Carlos do Carmo ou todas as letras do duplo CD Romance(s) (2015), de Aldina Duarte.



Ainda bem
que não morri de todas as vezes
que quis morrer – que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem

que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem

que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí – ainda mais perdida do que
antes – a olhar sem ver. Ainda bem

que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.

Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer – mas é – um poema de amor.




domingo, 18 de novembro de 2018

XII Jornadas de Língua e Cultura Portuguesas da APPEX

Já são 12 as jornadas organizadas pela APPEX e podemos estar todos orgulhosos desses encontros de lusofonia, amizade e bom ambiente!
Graças à colaboração direta da APPEX com o CPR de Almendralejo, contando, como sempre com o apoio do CLP/Camões e o GIT, podemos dizer que o dia de ontem foi um êxito e, sobretudo, no que à partilha de experiências se refere! Alegremos-nos pois! Basta dar uma olhada nas fotos!
Começámos com a receção aos colegas, com uma exposição de pratos pintados pelos colegas que participaram na última imersão de professores em Monsaraz, também organizada pela APPEX em setembro.
 

Dando início à Jornada, na sua inauguração oficial, contámos com a presença da diretora do CPR de Almendralejo, Dr.ª Rosa Blázquez e a nossa Delegada Provincial de Educação de Badajoz, conterrânea de Almendralejo, Dr.ª Piedad Álvarez.


A primeira conferência ficou a cargo da Dr.ª Ana Marcelino, professora de português da EOI de Mérida, com um trabalho bastante prático enriquecido com muitas atividades em que a música é a protagonista na sala de aulas, pensadas para favorecer o desenvolvimiento das diferentes habilidades linguísticas dos nossos alunos.

Depois de uma pausa para um café e umas torradinhas, segunda parte da manhã com um ateliê dedicado à partilha de práticas pedagógicas nas aulas em que as músicas da lusofonia são protagonistas. Conseguimos com isso seis grupos de trabalho e daí uma extensa lista de canções trabalhadas com diferentes fins pedagógicos.



Hora do almoço! Um almoço convívio fruto de uma execelente organização por parte do CPR de Almendralejo. Obrigado Dr.ª Begoña Hurtado. Oxalá todas as jornadas fossem como estas! Obrigado colegas! Foi um momento execelente!

Regresso do almoço e tempo para uma foto de família! Com o maravilhoso edifício da EOI e do CPR de Almendralejo por trás!

A parte da tarde entregámo-la a um grande artista de Elvas, Roberto Cabral que nos dedicou uma pequena história da música portuguesa, com tempo para exercícios de projeção de voz e, claro, umas canções ao vivo. Um pequeno concerto em "petit comité".



Acabámos a tarde com uma novo foto de família tirada por nosso amigo Roberto Cabral! Obrigado, pá! Foi mesmo um dia em cheio!


Tempo para a assembleia da APPEX que é como sempre acabam as nossas jornadas. Aqui, decidem-se novas jornadas organizadas em Almendralejo ou Zafra com a colaboração dos colegas de Zafra em outubro ou novembro de 2019. Serão as 13º jornadas. O tema? A gamificação, em princípio!

Outro tema debatio e de grande importância foi a necessidade de se implementar aquilo que está na lei, a oferta do português como segunda língua nos "institutos" da Extremadura. A APPEX, e os seus sócios procurarão recordá-lo de diferentes maneiras.

Enfim, como veem, um dia de muitas atividades, alegrias, companheirismo e grandes decisões. Um bem-haja a esta associação que já vai tendo uns aninho e que continua por aqui!

Até breve, amigos! 




segunda-feira, 21 de maio de 2018

Germano Almeida, Prémio Camões 2018


O vencedor do Prémio Camões 2018 é o escritor cabo-verdiano Germano Almeida.

O prémio que este ano está na sua 30.ª edição foi anunciado, após reunião do júri, no Hotel Tivoli, em Lisboa. O escritor, que nasceu na ilha da Boavista, Cabo Verde, em 1945, tem a sua obra publicada em Portugal pela editora Caminho que acaba de editar o seu mais recente romance, O Fiel Defunto. Estreou-se como contista no início da década de 80 e o seu primeiro romance, O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo, teve os direitos vendidos para vários países e foi adaptado ao cinema por Francisco Manso.

A notícia completa no jornal Público (21-5-2018)



segunda-feira, 12 de março de 2018

Recordamos: Ana Luís Amaral, na Aula Díez Canedo, no dia 15



A poeta portuguesa Ana Luís Amaral lerá os seus versos na próxima quinta-feira, dia 15, na Aula de Poesía Díez Canedo de Badajoz. Às 20:00 horas.


SENTIDOS

De vez em quando,
uma emoção em falso,
a ferida abre-se:
e eles entram solenes,
os meus mortos

Migram dos sítios quentes
onde os tenho de cor,
e as folhas do arbusto na varanda
em frente à minha cama
trazem as suas vozes

E quanto mais a luz é sobre a ferida,
mais eles aí estão

Cobre-as, às folhas,
o cortinado da janela larga,
e o que avisto daqui
é só um gume a verde,
de nem fotografia
porque em dança

Não me assustam
nem gritam, os meus mortos,
só me lembram que a chuva
que agora se insinua devagar
lhes foi tempo e morada,
e eles a mim

Que alguns deles olharam
nesta mesma varanda
as mesmas folhas,
mais jovens e mais verdes,
ou que outros deles viram outras folhas,
mais jovens, mas sem cor

Neste tempo de agora que os não tem,
aos meus mortos,
cresceram pouco as folhas,
e a emoção em que os tropeço, e a mim,
não os fazem nascer

(Tomara o lume
que as mantém em vida
fosse o gume na ferida
de os não ter)





segunda-feira, 5 de março de 2018

Encontro com o escritor David Machado (21 de março, 11h, "Centro Jovem - Puente Real", Badajoz)

Como já vem sendo uma tradição do IES Rodríguez Moñino, todos os anos, o departamento de português tenta organizar atividades culturais com nomes reconhecidos da cultura em português. Esta instituição de ensino público pacense orgulha-se de já ter contado com a presença de nomes indiscutíveis da música, do cinema e da literatura portuguesa aos quais se junta, no próximo dia 21 de março, pelas 11h, o escritor David Machado.

O percurso literário do David Machado fala por ele próprio e para a escola secundária é um prazer poder recebê-lo neste encontro literário, dinamizado pelos seus alunos de 4ºESO e 1ºBachillerato.  Esta atividade encontra-se inserida na "Semana Cultural" do IES Rodríguez Moñino e conta com o apoio do "Centro Jovem - Puente Real" que, amavelmente, abriu as suas portas para receber o escritor português.


Privilegia-se a assistência da atividade aos alunos do IES Rodríguez Moñino, no entanto, em caso de interesse por parte de outras pessoas em assistir ao ato, é favor contactar a comissão organizadora através do seguinte e-mail: dptoportuguesmonino@gmail.com ou através do contacto telefónico do IES Rodríguez Moñino.


quinta-feira, 1 de março de 2018

Ana Luísa Amaral na Aula de Poesía Enrique Díez-Canedo


A poeta Ana Luísa Amaral lerá os seus versos na Aula de Poesía Enrique Díez-Canedo, de Badajoz, no próximo 15 de março.


SARÇA ARDENTE

Um toque leve,
e eu perder-me-ei
- pelas planícies todas do azul,
pelos campos mais longos
que quiseres,
em direcção a leste, a norte,
a sul

Um toque tão macio de rouxinol
que a tortura se apague,
um nome se incendeie
junto ao chão
e expluda com a tarde

Desliza-me na pele
o fio incandescente dos teus dedos,
que eu entrarei de frente
pelo sol,
e arderei no sol,
sem medo

Ana Luísa Amaral





segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Eu Empregada Doméstica - Preta Rara (TEDx São Paulo)



"A Joyce, a Preta Rara, fala do que aprendeu com a sua experiência de trabalho como empregada doméstica e com a página de Facebook que criou em julho de 2016.

Preta Rara, ou Joyce Fernandes, é graduada em História e professora de história. Também é rapper e ativista. Se tornou portavoz das empregadas domésticas no Brasil depois de criar a página Eu Empregada Doméstica no Facebook"




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Acordo e ortographia


Andava perdida esta mensagem na pasta dos rascunhos:

Lido no blogue pesporrente (última postagem em abril de 2012), de André Simões, Assistente no Departamento de Estudos Clássicos da F.L.U.L. Acho que já desapareceram dele estas palavras:


"O auctor deste blogue, em homenagem àqueles que defendem com unhas e dentes as inoffensivas e inúteis consoantes mudas, passará a escrever restituindo na sua escripta não só as dictas cujas, mas também as igualmente inúteis consoantes duplas, e atté os dígraphos de origem hellénica, já sem falar do ýpsilon. Espera o auctor que esta escripta seja prazeirosa a todos os defensores da inmutabilidade orthográphica."