segunda-feira, 5 de novembro de 2012

VI Jornadas da APPEX - Badajoz, 17 de novembro



Desta vez, em Badajoz. No dia 17 de novembro vão decorrer as VI Jornadas de Língua Portuguesa e Cultura Lusófona, organizadas pela APPEX (Asociación del Profesorado de Portugués de Extremadura). Eis o programa:


9:00 h. – Recepción

9:30 h. – Inauguración

10:00-11:15 h.– Conferencia de Luís Miguel Leal Pinto: Calão ou palavrões? Que venha o diabo e escolha!

11:15-11:45 h. – Café y libros

11:45-14:00 h. – Las formas de tratamiento en el portugués europeo, uso y evolución. Mesa redonda. Ana Boléo y Eduardo Naharro-Macías Machado. Moderador: José Ignacio Martín Galán.

14:15-16:00 h. – Comida de inmersión

16:00-17:45 h.– Conferencia de Ana Belén García Benito: Por falar no Mendes, à porta o tendes-Hablando de Roma, por la puerta asoma. Propuestas para trabajar fraseología en la clase de PLE.

17:45-18:15 h. – Presentación del Diccionario de falsos amigos P-E/E-P por su autor, Hélder Júlio Ferreira Montero.

18:15-19:00 h. – Os Sons da Tradição. Grupo do Imaginário de Évora.
19:00-20:00 h. – Asamblea de la APPEX



9:00 h. – Receção

9:30 h. – Inauguração

10:00-11:15 h.– Conferência de Luís Miguel Leal Pinto: Calão ou palavrões? Que venha o diabo e escolha!

11:15-11:45 h. – Café e livros

11:45-14:00 h. – As formas de tratamento no Português Europeu, uso e evolução. Mesa redonda. Ana Boléo e Eduardo Naharro-Macías Machado. Coordenador: José Ignacio Martín Galán.

14:15-16:00 h. – Almoço de imersão

16:00-17:45 h.– Conferência de Ana Belén García Benito: Por falar no Mendes, à porta o tendes-Hablando de Roma, por la puerta asoma. Propostas para trabalho da fraseologia nas aulas de PLE.

17:45-18:15 h. – Apresentação do Diccionario de falsos amigos P-E/E-P pelo autor, Hélder Júlio Ferreira Montero.

18:15-19:00 h. – Os Sons da Tradição. Grupo do Imaginário de Évora.

19:00-20:00 h. – Assembleia da APPEX


Quem quiser participar nestas Jornadas é favor escrever um mail a comunicar o nome e se deseja assistir ao almoço (15 euros) para o seguinte endereço, que só será útil para estas VI Jornadas: 

badappex[arroba]gmail.com


Para quaisquer outras comunicações, dirijam-se para o endereço habitual da APPEX: 

appex.dir[arroba]gmail.com


sábado, 3 de novembro de 2012

110 aniversário de Drummond de Andrade

Fonte: Armazem do Educador

Três dias depois do 31 de outubro, mas cá está Carlos Drummond de Andrade, e está, sim, com a famosa pedra. Podemos escutar o poema em português e em mais 11 línguas.


NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Revista de Antropofagia (1928)


diaD 31.10

Carlos Drummond de Andrade: modernismo e pedra no caminho, Andrea Barros






sábado, 15 de setembro de 2012

Forma de inocência (António Gedeão)

Ainda somos os mesmos... - Fotografia de Otávio Nogueira (deltafrut)



FORMA DE INOCÊNCIA

Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ser igual.

António Gedeão


Movimento perpétuo (1956)


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Um bocado de humor



Como funciona uma livraria?

FREGUÊS: Bom Dia, menina!

LIVREIRA ANARQUISTA (logo desconfiada pela abordagem simpática. Que diz a experiência: o bizarro vem sempre precedido pelo aparentemente normal): Bom Dia…

FREGUÊS: Sabe-me dizer onde é que eu posso adquirir livros de instruções? Aqui não deve haver…

LIVREIRA ANARQUISTA (O que é que eu disse? Vou fazer uma tese sobre este assunto): Mas que tipo de instrução, pode ser um pouco mais preciso? Se for de condução, por exemplo, nós temos aqui alguns…

FREGUÊS: Nãonãonão, é de instruções de electrodomésticos mesmo. Aspiradores e essas coisas, ‘tá a ver? Como é chamado “livro” e isto é uma livraria pensei que pudesse vender aqui….


Fica para reflexão, porque ainda estou em convalescença e sem muita força anímica. Mas acompanhado dessa imagem; que não podia ser mais perfeita para a ocasião festiva.






sexta-feira, 27 de julho de 2012

Desventuras de um dendrólatra (Rubem Fonseca)


 Beija-flor tesoura num ipê amarelo - Fotografia de Flávio Brandão


Desventuras de um dendrólatra

É possível existir alguém que não goste de árvore? Não falo do sujeito, índio ou não, que faz a queimada para plantar mandioca, soja, cana-de-açúcar ou lá o que for. Esse vai direto para o inferno, mesmo jurando para São Pedro que fazia isso para conseguir o leite das crianças. Falo das pessoas que me cercam, que vivem na minha cidade e não têm qualquer razão para destruir, desprezar, ou até mesmo ignorar a existência das árvores.

O poeta polonês Czeslaw Milosz tem um poema denominado “Anelo” (ou “Desejo ardente”) que diz “não quero ser um deus ou um herói, apenas tornar-me uma árvore, crescer um longo tempo, e não ferir ninguém”.

São assim as árvores. Não ferem ninguém, e ainda dão sombra e frutos. Os druidas acreditavam que quando nos aproximávamos de uma árvore, nos acercávamos de um ser sagrado que nos podia ensinar sobre o amor e nos dar conhecimento e sabedoria. O termo druida tem origem céltica e acredita-se que seja um cognato da palavra grega drus que significa carvalho, essa árvore de grande porte.

Nosso nome, brasileiro, é proveniente de uma árvore de cerne vermelho, manchado de escuro, o pau-brasil, de onde veio o nome do nosso país. Somos, assim, parecidos com os druidas, eles se relacionam com o carvalho, nós com o pau-brasil. Apenas não acreditamos, como eles, que as árvores possam nos transmitir conhecimento ou sabedoria.

Moro numa praça onde periodicamente a Fundação Parques e Jardins planta algumas árvores, de maneira tão precária, que morrem em pouco tempo. São sustentadas por pedaços finos de bambu, que mal se mantêm em pé e não têm nenhuma proteção de metal em torno. Da última vez, plantaram oito árvores dessa maneira tosca e apenas uma sobreviveu, um ipê, que cresceu não obstante alguns mendigos bêbados, malucos ou vândalos cretinos, quebrassem constantemente os seus galhos.

Notando que ela não resistiria por muito tempo, pois a sua raiz não estava muito firme, telefonei para a Fundação Parques e Jardins. Dei o meu nome e endereço e falei da situação periclitante daquela árvore, expliquei que ela necessitava de uma proteção de metal, como as que existem na Praça Nossa Senhora da Paz. Eles prometeram uma providência. Um mês depois, como nada tivesse ocorrido, liguei novamente e disse que estava disposto a pagar pela proteção de metal. Aquilo deixou a pessoa que me atendeu meio perturbada, pediu para eu esperar na linha pois ia consultar alguém. Quando voltou disse que eles mesmos providenciariam a proteção.

Sei que a Fundação Parques e Jardins é integrada por pessoas dedicadas, que têm o maior interesse em preservar as árvores da cidade. Entretanto, a Fundação dispõe de um orçamento tão parcimonioso que tem dificuldades para atender às inúmeras solicitações que lhe fazem.

Toda noite, munido de várias garrafas grandes de plástico cheias de água, eu ia regar o ipê. Mas a sua raiz continuava bamba. Decidi solicitar o auxílio da BodyTech, uma academia de ginástica, que anunciava, com cartazes, que estava tomando conta da praça. Consegui que uma petição, assinada por vários sócios, fosse enviada à direção da academia solicitando providências em relação àquela árvore. Aconteceu alguma coisa? Nada. Aqueles cartazes da academia eram apenas propaganda.

Então decidi contratar uma pessoa para tomar conta da árvore. Esse indivíduo colocou vários quilos de terra adubada na raiz da árvore, improvisou uma proteção de madeira em torno do seu caule e borrifa, periodicamente, líquidos protetores em suas folhas.

Devido à influência do jornalista Agostinho Vieira, que tem uma coluna no GLOBO, Economia Verde, a Fundação Parques e Jardins colocou em torno da minha árvore uma proteção metálica.
Sei que existe quem diga que é uma coisa idiota fazer esse estardalhaço por causa de uma árvore. É devido a esse tipo de pensamento que uma, duas, três, milhões de árvores são incessantemente destruídas em nosso país. E isso me preocupa, quer seja um milhão de árvores, quer seja apenas uma. Sou um dendrólatra incorrigível.

Não posso deixar de citar trecho de um poema de Joyce Kilmer: “I think that I shall never see a poem lovely as a tree. [...] Poems are made by fools like me, but only God can make a tree.” (Em tradução livre: “Creio que nunca verei um poema lindo como uma árvore... Poemas são feitos por idiotas como eu, mas uma árvore só pode ser feita por Deus.”).

Essa praça, acrescento eu agora, deve ter todas as suas árvores, ou pelo menos a imensa maioria delas, destruídas pelo nocivo planejamento do metrô. A Praça Nossa Senhora da Paz em Ipanema vai sofrer a mesma violência. Realmente, como disse o poeta e filósofo alemão Schiller, “contra a estupidez humana até os deuses lutam em vão”. Mas quero deixar claro que não sou contra o metrô, como meio de transporte. Sou contra a destruição das árvores.


Rubem Fonseca



quinta-feira, 29 de março de 2012

O livreiro insolente (Manuel António Pina)

 O proprietário à porta da livraria


Artigo de opinião sobre o fecho, ocorrido anteontem, da livraria lisboeta Poesia Incompleta, dedicada exclusivamente à venda de poesia... É uma triste notícia para os amantes da poesia.


O LIVREIRO INSOLENTE

A poesia tem justificada má fama. Chamar poeta a alguém, no Parlamento ou no Estádio da Luz, é maior insulto do que chamar intelectual a Pacheco Pereira, como fez Valentim Loureiro num dia em que se achou mais pachorrento. E temos que convir que, se "ser poeta é" o que Florbela Espanca diz que é e os Trovante andam por aí a "dizê-lo, cantando, a toda a gente", compreende-se que assim aconteça.

Imagine-se agora que, num determinado "país de poetas", um insolente livreiro decide abrir uma livraria exclusivamente dedicada à poesia. Era bem feito que lhe chamassem poeta, ou ainda menos. Foi o que aconteceu. Ao fim de mais de três anos a juntar e vender ociosidades numa obscura rua do Príncipe Real, em Lisboa, a livraria "Poesia Incompleta" fechou ontem portas. Ainda por cima sem dívidas, o que hoje é coisa ainda mais insultuoso do que "poeta".

Alguém deveria ter explicado ao jovem empreendedor Mário "Changuito" Guerra que a única forma de manter durante três anos uma livraria exclusivamente dedicada à poesia e chegar ao fim com uma pequena fortuna é começando com uma grande fortuna. Não foi, obviamente, o caso.

Anunciou o livreiro que irá doar (ou doer, não sei) os milhares de volumes que lhe sobram nas prateleiras ao omniministro Relvas. Só que, tal como "assustar um notário com um lírio branco", pôr Miguel Relvas ao alcance de Kavafy, Camões e Rilke cai decerto sob a alçada da lei antiterrorista. 


Manuel António Pina no Jornal de Notícias


A notícia no Público



segunda-feira, 26 de março de 2012

Efeitos da crise e humor

Porque não podemos esquecer o humor nestes tempos, trazemos um achado que fizemos na rede, no blogue O economista português):

Fala-se nos aí de um bebe aborrecido (vejam o link) que...

.. terá dificuldade em conjugar os verbos…. 




… e ainda mais em pagar com as novas notas de Euro








terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Intimação ao Professor Malaca (Vasco Graça Moura)

E agora a outra parte...


«Intimação ao Professor Malaca» [VGM, DN] 

Num esgar de arrogância despeitada, o Prof. João Malaca Casteleiro diz ao Expresso de sábado passado, sobre a minha tomada de posição contra o Acordo Ortográfico: “É um autêntico disparate e uma atitude mesquinha, revelando espírito de vingança. Quem vai pagar estes custos?”.

Tenho pouca paciência para os trejeitos do autor de um livro intitulado O Novo Acordo Ortográfico, que não li, não tenciono ler e achei, de resto, perfeitamente detestável. Num gesto largo e moscovita, deixo essa ocupação para a moleirinha ociosa do Dr. António José Seguro que decerto muito lucrará com isso.

O professor Malaca tem-se especializado em produções de medíocre qualidade, como o famigerado e redutor dicionário da Academia das Ciências, abominável exercício de encolhimento do português contemporâneo, de cuja revisão ele parece agora ter sido dispensado. Mas não vale a pena gastar cera com ruins defuntos. E quanto a quem paga custos e que custos, estamos conversados…

Também não vale a pena tratá-lo como interlocutor capaz quanto a questões jurídico-constitucionais relativas à recepção na ordem interna dos tratados e convenções internacionais. Prefiro poupá-lo aos custos desse ingente esforço intelectual.

Mas já vale a pena intimar o professor Malaca a responder muito concretamente aos pontos seguintes:

O art.º 2.º do AO dispõe: “Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas.”

Sendo certo que o prazo inicialmente referido foi modificado, deve o professor Malaca responder sem subterfúgios onde é que está esse vocabulário comum.

Não existindo esse vocabulário comum, deve dizer sem subterfúgios onde é que está a plataforma ou instância formada por instituições e órgãos competentes dos Estados signatários, com o mandato e o objectivo de elaborá-lo, qual o seu calendário de reuniões e qual o teor daquilo que tenha deliberado.
Ainda quanto a este aspecto, deve responder, sempre sem subterfúgios, quais são, em Portugal e nos outros países as instituições e órgãos competentes para o efeito.

Caridosamente, informo-o de que não vale a pena fazer batota: em Portugal, a instituição competente é a Academia das Ciências, o que o Governo Sócrates esqueceu em patente violação da lei, e não o ILTEC (Instituto de Linguística Teórica e Computacional), que é um simples instituto universitário e não tem qualquer competência formal ou institucional na matéria (tem financiamentos da FCT cujos montantes podem ser objecto de indagação, já que o professor Malaca se mostra tão preocupado com custos).

Supondo que ele respondeu correctamente às questões que antecedem, fica intimado a explicar também como é que entende que o AO de 1990 pode ser aplicado sem a verificação desse pressuposto.

A segunda ordem de questões prende-se com regras do próprio AO.

Diz a al. c) do n.º 1 da Base IV do AO que o c, com valor de oclusiva velar, das sequências interiores cc (segundo c com valor de sibilante), cç e ct, e o p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante), pç e pt, se conservam ou eliminam “facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor; ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção”.

Sendo assim, é o professor Malaca intimado a esclarecer, imediatamente e sem subterfúgios, se a aplicação de uma ferramenta de conversão automática que elimine na prática a possibilidade de opção entre essas facultatividades corresponde a cumprir o AO.

E por fim é o professor Malaca intimado a identificar, localizar e caracterizar as pronúncias cultas dos sete países signatários do AO, de modo a que a base IV seja exequível.

Vasco Graça Moura

[Transcrição integral de crónica da autoria de Vasco Graça Moura no "Diário de Notícias" do dia 08.02.12.]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A voz das consoantes sem voz (Rui Tavares)



A voz das consoantes sem voz

Rui Tavares

Crónica do autor, na sua coluna no jornal "Público" de 6/02/2012, a propósito do cancelamento do Acordo Ortográfico no Centro Cultural de Belém em Lisboa, ordenado pelo seu novo presidente, Vasco Graça Moura.


Salvé, Vasco Graça Moura, insigne auctor que desafiaste o dictame do Governo e reintroduziste a escripta antiga no teu Feudo Cultural de Belém! Povo português, imitai o exemplo deste Aristides Sousa Mendes das consoantes mudas, como lhe chamou o escriptor e traductor Jorge Palinhos. Salvai as sanctas letrinhas ameaçadas pela sanha accordatária.

Mas ficai alerta, portugueses! As consoantes mudas são muitas mais do que julgais! O "c" de actual e o "p" de óptimo são apenas os últimos sobreviventes de um extermínio secular que lhes moveram os medonhos modernizadores da escripta. Há que salvar agora estas pobres victimas, até à septima geração.

Acolhei-as pois a todas, portugueses, recolhei-as agora em vossos escriptos como a inocentes ameaçados por Herodes. Se há uma consoante muda a salvar em factura, há outra em sanctidade, e esta ainda mais sancta do que aquela. O Espírito Sancto tem uma. Maria Magdalena tem outra. E Jesus Cristo? Ora! O fructo do vosso ventre, Maria, já tinha consoante muda mesmo antes de nascer. Não sabíeis? Assim Ele se conformou, e nós nos inconformaremos.

Há quem diga que o accordo ortográfico é um tractado internacional que foi já transcripto para as nossas directivas internas. Dizem que o assumpto morreu.

Balelas! Nada nem ninguém nos obrigará a cumprir obrigações internacionais. Vasco Graça Moura mostra o caminho, e eu – peccador que fui – vejo agora a luz. Depois da summa missão de salvar as consoantes mudas que resistem, e ressusciptar as que foram suppliciadas no passado, há que supplementar este grande desígnio com outras acções.

O conductor da ambulância que leva doentes oncológicos a serem tractados, pode desobedecer ao corte de subsídios de transporte fazendo o serviço gratuitamente. O quê, a austeridade, a troika? Balelas! O memorando não passa de um simples accordo internacional que o Governo quer implementar. Se Graça Moura faz lei, de graça poderão também entrar os passageiros nos transportes públicos. E se o seu chefe for um republicano e patriota daqueles que não se contentam com andar com a bandeira num pinda lapela? Pois decrete que o fim dos feriados não vale lá na repartição. E o paginador do Diário da República pode rasurar as nomeações partidárias e alguns zeros dos salários de administrador, para dar espaço às consoantes mudas. O Governo entenderá.

Néscio António Mega Ferreira que, apesar da sua gestão impeccável, foi demitido. Nada lhe succederia se, em vez de padecer de "falta de sintonia política", tivesse antes violado um accordo internacional que o Governo decidira fazer entrar em vigor meras semanas antes.

Insensato Pedro Rosa Mendes, que foi censurado por contrariar o Governo de Angola. Se contrariasse a CPLP inteira, ainda tinha crónica, e applauso da imprensa!

Longe vai Diogo Infante, demitido por não ter dinheiro para fazer teatro no Teatro Nacional. Mas João Motta, que o substituiu, pode agora imitar a Nova Estrela de Belém. Mande as restricções às malvas, gaste o que tiver a gastar, desde que mande os actores pronunciar as consoantes que agora já não são mudas mas mártires, e que nunca mais se calarão, e que orgulhosamente transformaremos em oclusivas, fricativas ou até explosivas, se nos der na bolha, numa aKção aFFirmativa e peremPtória!

Está assim lançado um movimento que fará os gregos corar de vergonha e os alemães tremerem das pernas. Vamos dar voz às consoantes sem voz! E depois, quem sabe, aos portugueses sem voz, sem trabalho e sem futuro.

In jornal "Público" de 6 de Fevereiro de 2012 :: 06/02/2012 

Rui Tavares é Historiador e deputado português ao Parlamento Europeu 

(Fonte: Ciberdúvidas)