sábado, 31 de março de 2007

Maneiras de escutar música


"Vejo que nunca te disse como escuto música - apóio de leve a mão na eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim ouço a eletricidade da vibração, substrato último no domínio da realidade, e o mundo treme nas minhas mãos".


Clarice Lispector

domingo, 25 de março de 2007

Poema de Catarina Nunes de Almeida


Não se esqueçam do nome dela porque leva muita poesia




A Prostituta da Rua da Glória
Tanges a noite sem saber que a noite

é uma cítara com cordas de ferro

onde os insectos ferem as asas.


O teu canto arranha o azul da chama

e a cidade desperta para a dança:

um labirinto de minotauros

sorvendo o odor do primeiro tango

–um ténue resquício de feno escondido na nuca.


Ainda ontem foi lua cheia no teu ventre.

Sobrou um aquário onde os cegos vêm depenicar

a caspa dos pombos.

Hoje não saias, deixa-te ficar.


Pelos corredores as fêmeas largam o pó

das florestas quentes

–ténues resquícios de feno escondidos na nuca.


Hoje não saias, deixa-te ficar.

Deixa dormir o teu sexo cansado de morrer.



sexta-feira, 23 de março de 2007

José Miguel Wisnik

José Miguel Wisnik é músico/compositor e professor de Literatura Brasileira na USP. Nasceu em São Vicente, no litoral do estado de São Paulo, e define-se como um "paulista do mar" (além de "baiano também"). Wisnik estudou piano clássico durante muitos anos, mas optou pela faculdade de Letras. Apresentou-se pela primeira vez como solista da Orquestra Municipal de São Paulo aos 17 anos, interpretando "Concerto n¼ 2", de Camille Saint-Saens.

Por volta de 1985, Wisnik acabou se juntando a diversos músicos, era um "freqüentador" do Grupo Rumo e compunha músicas com os amigos. Se diz um professor universitário que queria ser músico popular e desde 1973 nunca parou de dar aulas.


Tem três discos gravados. O segundo, "São Paulo Rio", teve participação de Elza Soares. Esta "parceria" com a cantora lhe rendeu a direção artística do último disco de Elza, além de alguns shows em 2002. "São Paulo Rio" chegou ao mercado exclusivamente pela internet em uma parceria entre o portal iG e a loja virtual Submarino, e hoje é encontrado também em lojas. Wisknik já teve suas músicas gravadas por Gal Costa, Ná Ozzetti, Edson Cordeiro, Zizi Possi entre outros.


Também escreve ensaios sobre música e literatura. Publicou "O Coro dos Contrários - a Música em Torno da Semana de 22" (Duas Cidades, 1977), "O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira" (Brasiliense, 1982) e "O Som e o Sentido" (Companhia das Letras, 1989), além de participar dos livros coletivos "Os Sentidos da Paixão, o Olhar e Ética" (Companhia das Letras, 1987, 1988 e 1992).


Além de seus discos, livros, ensaios e aulas, Wisnik fez também música para cinema (Terra Estrangeira/Walter Salles e Daniela Thomas), teatro ("As Boas", "Hamlet" e "Mistérios Gozozos" para o Teatro Oficina, e "Pentesiléias", de Daniela Thomas, dirigida por Bete Coelho) e dança. Fez duas trilhas sonoras para o grupo Corpo, uma delas, Parabelo, em parceria com Tom Zé. Já recebeu alguns prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte, além do premio Jabuti em 1978 entre outros.


segunda-feira, 19 de março de 2007

I Fórum da Língua Portuguesa no Contexto Ibérico (APLEPES)


A Associação de Professores de Língua Portuguesa em (na) Espanha (APLEPES) organiza, no próximo 13 de Abril, o I Fórum da Língua Portuguesa no Contexto Ibérico na Faculdade de Filologia da Universidade Complutense de Madrid. Para participar nele e obter qualquer informação que possa ser do seu interesse, visite a web de APLEPES.

Nessa web podemos ler que a APLEPES "foi criada no dia 2 de Janeiro de 2006 e trata-se de uma associação independente, sem fins lucrativos, cuja intenção é fomentar o intercâmbio entre profissionais que contribuem na divulgação da língua e cultura dos países lusófonos, além de trabalhar para melhorar a qualidade no nosso se(c)tor profissional, propiciando mecanismos de apoio pedagógico e de formação para professores de português."

sábado, 17 de março de 2007

Lura, vigor caboverdiano

"Estoy acostumbrada a vivir entre la cultura portuguesa y la caboverdiana. Siempre he sabido lo que debía hacer en cada situación. Una vez pasé dos meses seguidos en Cabo Verde y sentía saudades de Lisboa. Y en Lisboa las tengo de Cabo Verde", dice la cantante Lura, nacida en Lisboa en 1975, en el artículo de Carlos Galilea publicado hoy en El País.

Tras Di korpu ku alma (De cuerpo y alma), álbum de 2005, ha publicado ahora un nuevo disco M'bem di fora (Vine de lejos).


sexta-feira, 16 de março de 2007

Vinho dos Amantes novo CD de Janita

Lançamento 12 de Março

Do Blogue Janita Salomé:

«Vinho dos Amantes» é o título do novo disco de Janita que, com etiqueta da SomLivre, passou a estar à venda. Nele, o compositor constrói - de forma inspirada - «uma ode ao viver pleno e intenso», tomando, para tal, da mais bela poesia sobre o vinho. «De um vinho néctar de deuses, partilhado e oniricamente alimento dos espíritos terrenos privilegiados pelo toque demiúrgico.»

Nele, Janita concentra todos os condimentos para surpreender. Ao despontar intenso e livre, corporiza, de forma incontornável, lúcida e amadurecida, a sua faceta de criador e de experimentalista. Longe dos ambientes e melismas alentejano-arabigoandaluzes traz-nos agora outras sonoridades que, embora presentes no seu imaginário, permaneceram latentes até ao momento. Ora, é numa espécie de despertar, rumo a outros universos musicais possíveis, aqui carregado de um humor e uma melancolia genuinamente portugueses, que o redescobrimos.

Na verdade, sem cortar o cordão umbilical com a matriz mediterrânica que perpassa toda a sua obra, Janita Salomé arrisca hoje outros domínios da construção melódica, aqui mais explicitamente portuguesa. Além disso, o equilíbrio criado em cada composição surge aqui, à semelhança do que acontece em toda a sua obra, como um potenciador da palavra escrita dos poetas, onde se perfilam Camilo Pessanha, Hélia Correia, Carlos Mota de Oliveira, José Jorge Letria, Anacreonte, Li Bai e Charles Baudelaire.

«Vinho dos Amantes», o novo trabalho de Janita, é em última análise, onde o autor «canta a embriaguez da poesia... da virtude... do amor... da vida.»

quinta-feira, 15 de março de 2007

Momentos... (Clarice Lispector)


Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém, que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado. A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Lobo Antunes, vencedor do Prémio Camões


O mais importante prémio literário em língua portuguesa distinguiu o escritor António Lobo Antunes. Este prémio já distinguiu escritores como Saramago, Augustina Bessa Luís, ou Luandino Vieira.
Lobo Antunes, que já se referiu aos seus leitores como prostitutas, sem dúvida uma personagem literária peculiar, vê assim na sua conta bancária mais 100000 euros. Parabéns.

terça-feira, 13 de março de 2007

Raduan Nassar


La vida, hecha tantas veces de casualidades, ha puesto, por medio de una de ellas, el nombre y una de las mejores obras del brasileño Raduan Nassar en mis manos. Vayan, pues, algunas palabras sobre él, y lo mejor, algunas palabras del autor de Lavoura arcaica.

O escritor Raduan Nassar nasceu em Pindorama, no estado de Sao Pãulo, em 1935, filho de imigrantes libaneses. Na adolescência, foi para São Paulo com a família, onde cursou Direito e Filosofia na USP. Estreou na literatura no ano de 1975, com o romance Lavoura Arcaica. Em 1978 é publicada a novela Um copo de cólera (escrita em 1970). Após a sua estréia na literatura, Nassar deixou de escrever em 1984 e vive hoje em um sítio em sua cidade natal. Em 1997, é publicada a obra Menina a caminho, reunindo seus contos dos anos 60 e 70. Com apenas três romances publicados é considerado pela crítica como um grande escritor e comparado a nomes consagrados da literatura brasileira como Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Tudo isso graças à extraordinária qualidade de sua linguagem e força poética da sua prosa. Cultuado por um pequeno círculo de leitores, Raduan se tornou mais conhecido pelo público em geral com as versões cinematográficas de Um copo de cólera (1995) e Lavoura Arcaica (2001).

Que rostos mais coalhados, nossos rostos adolescentes em volta daquela mesa: o pai à cabeceira, o relógio de parede às suas costas, cada palavra sua ponderada pelo pêndulo, e nada naqueles tempos nos distraindo tanto como os sinos graves marcando as horas: "O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia; rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; por isso, ninguém em nossa casa há de dar nunca o passo mais largo que a perna: dar o passo mais largo que a perna é o mesmo que suprimir o tempo necessário à nossa iniciativa; e ninguém em nossa casa há de colocar nunca o carro à frente dos bois: colocar o carro à frente dos bois é o mesmo que retirar a quantidade de tempo que um empreendimento exige; e ninguém ainda em nossa casa há de começar nunca as coisas pelo teto: começar as coisas pelo teto é o mesmo que eliminar o tempo que se levaria para erguer os alicerces e as paredes de uma casa; (…)


(Fonte dos dados biobliográficos: Wikipédia)

segunda-feira, 12 de março de 2007

Um poema de David Mourão-Ferreira


TESEU, AO TELEFONE

Labirinto de néon e de vento,
noite por estas ruas, sob a chuva...
Na cabina telefónica procuro,
entre milhares de fios, um somente.

Com seu corpo de touro, a tempestade,
com seu rosto de gente, a tentação,
já nas esquinas lóbregas travaram,
comigo, corpo-a-corpo, tal combate

que somente encontrando aquele fio,
o da voz de Ariana, poderei
reconduzir-me inteiro ao meu destino.

E através deste círculo de números
vou tentando o acesso ao parapeito
- que daqui se não vê, porque está escuro.


domingo, 11 de março de 2007

Badajoz, sede de la UE para la cooperación hispanolusa

El vicepresidente del Gobierno extremeño, Ignacio Sánchez Amor, ha destacado la elección de Badajoz como sede del Secretariado Técnico Conjunto del nuevo Programa de Cooperación Transfronteriza España-Portugal, para el período 2007-2013, lo que supone "la confirmación del papel de Extremadura en las relaciones hispano lusas".

En declaraciones a Efe, Sánchez Amor agradeció al Gobierno que haya elegido la candidatura que le presentó la Junta de Extremadura sobre Badajoz como sede de esta oficina técnica.

El vicepresidente extremeño recordó que hace unos años el papel preponderante que ahora tiene Extremadura en las relaciones hispano lusas correspondía a Galicia, algo que posteriormente parecieron compartir ambas comunidades autónomas y que ahora pasa a liderar la región, con la elección de Badajoz como sede de la oficina del programa Interreg.

quarta-feira, 7 de março de 2007

Eneagrama

O Eneagrama (do grego Ennea = nove e grammos = figura ou desenho) é um antigo sistema de sabedoria, criado há cerca de 2500 anos, provavelmente no Egito. Seu conhecimento foi mantido sigiloso durante muitos séculos.

A idéia foi trazida por G. Gurdjieff para o Ocidente (principalmente França e Alemanha), após 20 anos de peregrinação pelo Oriente. Mais que trazer uma visão dos tipos humanos representa um esquema para a compreensão de todos os fenômenos envolvendo a humanidade. Em 1970, o Eneagrama foi trasmitido por Oscar Ichazo para um grupo de pessoas recrutadas principalmente pelo Psiquiatra chileno Claudio Naranjo e reunidas na cidade de Arica, no Chile, de onde passou para os Estados Unidos e América do Sul. Diversos estudos e escolas de Eneagrama surgiram e passaram a explorar este conhecimento antigo e desenvolvendo aplicações bem sucedidas na Psicologia, na Espiritualidade, no mundo dos negócios, nas artes e em diversos outros campos do conhecimento.

Este sistema descreve a queda e a ascenção possível da consciência humana, segundo nove padrões. De acordo com o eneagrama, todos nós temos um pouco de cada um deles, de acordo com a situação. Entretanto, cada um de nós escolheu e desenvolveu um deles como espada. Cada pessoa, assim, pode possuir traços dos nove pontos do Eneagrama, mas possui apenas um Tipo, que não muda. Existe, entretanto, evolução dentro de cada Tipo, em seus diferentes níveis de desenvolvimento e consciência. As nove paixões descritas pelo Eneagrama são:

Eneagrama Tipo 1 O perfeccionista - Tipo 2 O ajudante - Tipo 3 O organizador - Tipo 4 O especial - Tipo 5 O intelectual - Tipo 6 O leal - Tipo 7 O entusiasta - Tipo 8 O líder - Tipo 9 O pacificador.

Muitas pessoas que conhecem o Eneagrama concluem que ele é um sistema altamente profundo e preciso na descrição de comportamentos humanos. Mais do que uma tipologia, o Eneagrama é um mapa que mostra caminhos possíveis da evolução de nossa consciência, ou seja, da superação da paixão e da fixação de nosso tipo no Eneagrama. Com o tempo, o Eneagrama vem se tornando mais conhecido por muitas pessoas e aplicado com sucesso por pessoas, grupos e importantes organizações. Quando bem aplicado, este sistema promove aceitação própria e aceitação mútua e orienta pessoas em seus caminhos de desenvolvimento pessoal, profissional e espiritual.

Existem inúmeros testes de Eneagrama formulados por diferentes autores, os quais traçam uma hipótese inicial do tipo. A maior parte das "escolas" de Eneagrama entendem que a identificação do tipo deve ser feita pela própria pessoa, a partir de exercícios de auto-observação. Para conhecer a distribuição de suas orientações com relação a cada E-tipo: Teste do eneagrama.

Fonte: Wikipedia
Outros testes:
Teste de orientação

terça-feira, 6 de março de 2007

Taller avanzado de Lengua y Cultura Portuguesa


Recordamos a todas las personas interesadas en mantener su portugués y ampliar sus conocimientos de lengua y cultura portuguesa, residentes en Cáceres y alrededores, que siguen en marcha estos seminarios.

Para cualquier información adicional, podéis dirigiros a José Ignacio Martín.

Olá, Brasil

segunda-feira, 5 de março de 2007

Lampião e Maria Bonita (II)

Maria Bonita era o apelido de Maria Gomes de Oliveira, a primeira mulher a participar de um grupo de cangaceiros. Nasceu em 8 de março de 1911.
Com 15 anos, casou com um sapateiro, José Miguel da Silva, conhecido como Zé Neném. A vida ao lado do marido era ruim, viviam brigando e não tiveram filhos. A cada desavença Maria Bonita ia para a casa dos pais e durante uma destas estadas, em 1929, conheceu Lampião, quando este tinha quase 33 anos e Maria pouco mais de 20.

A família vivia em Santa Brígida, Bahia, lugar por onde "Rei do Cangaço" costumava passar várias vezes, a caminho do Sergipe. Os pais de Maria Bonita sentiam pelo Capitão uma mistura de respeito e admiração. A mãe contou a Lampião que sua filha era sua admiradora. E no ano seguinte, ao passar pela fazenda, Virgolino levou Maria, com o consentimento de sua mãe. Durante os oito anos que viveu com Lampião, esteve totalmente apaixonada por ele e teve quatro gestações, sobrevivendo apenas uma menina, Expedita, que nasceu em 1932 e foi criada anonimamente por coiteiros.

Primeira mulher cangaceira, Maria Bonita era tratada como a esposa do chefe, respeitada por sua braveza e beleza, típica da mulher sertaneja: baixa, cheinha, olhos e cabelos escuros, dentes bonitos, pele morena clara.


Maria Bonita era a Musa e a Rainha do Cangaço e ocupava-se entre outras coisas de costurar a indumentária dos cangaceiros. Em alguns momentos, a intervenção de Maria Bonita impediu vários atos de crueldade de Lampião. Depois dela, os outros cangaceiros também trouxeram suas companheiras para fazerem parte do bando. Geralmente as mulheres não participavam dos combates e ficavam preservadas em lugares seguros por seus companheiros. As mulheres neste grupo viviam de maneira diferente das donas de casa, não lavavam e nem passavam. As armas pequenas que levavam serviam somente para dar uma aparência de guerreira. Se destacaram: Dadá, esposa de Corisco, Lídia, mulher de Zé Baiano e outra Maria, mulher de Pancada, Dulce, amiga de infância de Maria Bonita, Sila, mulher de Zé Seleno, Maria dos Santos, etc. Somente Dadá, sobre quem iremos falar agora, lutava. Algumas mulheres eram escolhidas para serem esposas de cangaceiros contra suas vontades. Outras, viam no bando de Lampião uma forma heróica de escapar da repressão familiar e viver aventuras livremente.

Nascida com o nome de Sérgia Ribeiro da Silva, em Belém, no dia 25 de abril de 1915, morava na Bahia quando seu primo Corisco a levou como esposa para o Cangaço. Muito bonita, forte - tinha 1,70 m - e valente, Dadá era admirada pelos companheiros pela sua bravura, e considerada parte integrante do grupo. Teve sete filhos durante o cangaço, que deixava com parentes e amigos pelo caminho. Quando Lampião e Maria Bonita foram mortos, estava com Corisco na fazenda Emendadas, em Alagoas. Saíram em busca dos delatores de Lampião e chacinaram toda a família do vaqueiro Domingos Ventura, dentre outras pessoas. Desde então viviam refugiados na caatinga. Dadá era a primeira e única mulher a ter um fuzil no bando. Em 25 de maio de 1940, Corisco foi morto e ela ferida no pé, que teve que ser amputado. Dadá viveu muitos anos, contando a sua história, vindo a falecer em 1994.

"Se entrega corisco,
eu não me entrego não,
eu não sou nenhum passarinho
pra viver lá na prisão...
ai, ai, meu Deus
eu não me entrego não
que eu não sou nenhum passarinho
pra viver lá na prisão. "

"Acorda, Maria Bonita
acorda, vem fazer café,
que o dia já está raiando,
e a milícia já está de pé."

domingo, 4 de março de 2007

Saber Ouvir Saber Falar – 7º Encontro Nacional da APP


A Doutora Maria Helena Mira Mateus na conferência inaugural.


As representantes da Asociación de Profesores de Lengua Portuguesa en España (APLEPES), Gláucia Grohs, e a Presidente, Sandra Teixeira.


Os integrantes de O Contador de Histórias a tentarem tirar
da terra o "nabo descomunal".


Impecavelmente organizado pela Associação de Professores de Português, realizou-se nas instalações do Instituto Superior de Engenharia de Coimbra o seu 7º Encontro Nacional nos dias 2 e 3 deste mês. O tema central era a Oralidade por ter sido sugerido pelos participantes na edição anterior. A APPEX esteve representada por José Ignacio Martín Galán e Pedro L. Cuadrado Andrés.

Dado tratar-se de um tema muito pouco abordado em encontros de professores de português, a organização propôs a abordagem dos mais variados tópicos relacionados com este tema:
- Modalidades formais do oral: exposição, debate, entrevista
- Didáctica e avaliação do oral
- Funcionamento do discurso/código oral
- Oratória
- Literatura de tradição oral
- Literaturas africanas e oratura
- Oralidade e literatura: drama, poesia e discurso directo
- Terminologia Linguística: fonética e fonologia

A conferência inaugural, intitulada A contribuição do estudo dos sons para a aprendizagem da língua, foi pronunciada pela Doutora Maria Helena Mira Mateus.

A documentação entregue aos participantes foi muito completa, incluindo aliás um CD com os textos completos das conferências e comunicações e um DVD com os 90 minutos do programa Que português falamos? –emitido na passada quinta-feira–. A APP firmou no início deste ano um protocolo de parceria com a RTP tendo em vista a colaboração com o programa “Sociedade Civil". No programa participaram Edviges Antunes Ferreira, vice-presidente da APP; Isabel Hub Faria, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e Teresa Brocardo, professora na Universidade Nova de Lisboa. Este material fica à disposição dos associados da APPEX e de todos aqueles que estiverem interessados no tema.

Confesso que para mim, e para mais alguns, foi uma descoberta a intervenção da professora da Universidade de Lisboa, Inocência Mata, são-tomense, pelo que nos disse, pelo que nos contou, por como o fez, pela sua verbe, enfim por ela própria. Passámos uns óptimos momentos a ouvir As oralidades da escrita. Anotei um provérbio africano, tirado da história que nos contou, uma “briga” entre duas raparigas mais velhas e uma irmã ou prima mais nova. Quando esta pediu para elas pararem, recebeu o desprezo delas, e a tia, testemunha da cena, disse: “Quando dois elefantes brigam, o capim é que paga”. Mas elas, africanas nadas e crescidas em Lisboa, não perceberam.

No jantar de convívio fomos deliciados pelo grupo O Contador de Histórias, oriundo da freguesia tomarense de Asseiceira: poemas de Ruy Belo, Jorge de Sena, Alberto Pimenta, contos da tradição popular, como “A Tia Miséria”, etc. Eles fizeram participar todos os presentes na extração de “um nabo descomunal” que dois velhinhos não conseguiam tirar. Rimos todos imenso.

Fica aqui um muito obrigado à APP nos nomes de Paulo Feytor Pinto, Presidente; Edviges Antunes Ferreira e Ana de Sousa (sei que não foram os únicos, desculpem os demais por não serem citados), que tanto trabalharam para levar a bom porto este 7º Encontro. Conseguiram-no.

(Peço ao meu colega para ele completar esta notícia porque de certeza terão escapado alguns aspectos. Obrigado).

sexta-feira, 2 de março de 2007

Samba e forró

A turma de alunos do IES Domingo Cáceres (em Badajoz) tiveram a oportunidade de aprender a dançar samba graças à sua professora Fátima Merino e a três simpáticas moças brasileiras que moram nesta cidade. Os alunos ficaram entusiasmados e com grande motivação para continuar a aprender português e as suas manifestações culturais. Parabens, Fátima.

O samba e talvez a manifestação musical brasileira mais conhecida. Mas há outras muito interessantes, como o forró, música popular brasileira divertida, estimulante e sensual. Deixo aqui um video da primeira aula e links para aprender os primeiros passos. Animem-se a conhecer melhor o mundo musical do forró e divirtam-se.


Aula 2
Aula 3
Apresentação


quinta-feira, 1 de março de 2007

Lampião, heroi ou bandido? (I)


No século XVII, ocorreu o deslocamento do centro da economia para o sul do Brasil. O sertão nordestino já castigado pelo flagelo das secas prolongadas, vê agravar-se as desigualdades sociais. Neste panorama visualiza-se a figura do coronel, detentor de todo o poder e lei da região que considerava-se senhorio. A existência de constantes conflitos devido à posses e limites geográficos entre as fazendas, além das rivalidades políticas, fizeram com que estes senhores feudais, procurassem cercar-se do maior número de jagunços (vassalos dos coronéis) e cabras, necessários para defender seus interesses. Deste modo, se criaram verdadeiros exércitos particulares e verdadeiras guerras foram travadas entre famílias. Este quadro, como vemos, foi propício para o aparecimento do banditismos.

No final do Império e em seguida a grande seca de 1877-1879, a miséria e a violência eram crescente, o que viabilizou, em face da luta pela própria sobrevivência, o surgimento dos primeiros bandos armados independentes do controle dos grandes fazendeiros. O cangaço, entretanto, só toma vulto na República, com a figura de Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião.

LampiãoVirgolino nasceu no dia 07 de julho de 1897, no Sítio Passagem das Pedras, na Serra Vermelha, atual Serra Talhada. Jogado na clandestinidade após o assassinato de seu pai, Lampião foi o maior cangaceiro (nome dado aos foras-da-lei que viveram de forma organizada, no final do século passado e início deste, na região do nordeste brasileiro ) de todos os tempos. Percorreu sete estados da região nordeste durante as décadas de 1920 a 1930, levando sangue, morte e medo à população do sertão. No início da década de 30, mais de 4 000 soldados estavam em seu encalço, em vários estados. Seu grupo contava então com 50 elementos entre homens e mulheres. Tornou-se amigo de coronéis e grandes fazendeiros que lhe forneciam abrigo e apoio material.

O bando do mais temido dos cangaceiros entrava cantando nas cidades e vilarejos. Fisicamente, Lampião era um homem de 1,70 m de altura, amulatado, corpulento e cego de um olho. Adorava adornar seus dedos com anéis e usava no pescoço lenços de cores berrantes, preso por valioso anel de doutor em Direito. Com chapelões em forma de meia lua ricamente ornamentados com moedas de ouro e prata e roupas de couro, os bandidos chegavam a pé e pediam dinheiro, comida e apoio. Se a população negasse, a cantiga cedia lugar à marcha fúnebre: crianças eram seqüestradas, mulheres violentadas e homens, rasgados a punhal. Mas, caso os pedidos fossem atendidos o Lampião organizava um baile e distribuía esmolas. Na manhã seguinte, antes que os soldados da volante viessem, o bando partia em fila indiana, todos pisando na mesma pegada. O último ia de costas, apagando o rastro com uma folhagem.

Foi assim por quase três décadas. Vagando por sete Estados, Virgolino semeava terror e morte no sertão. O fracasso das operações preparadas para capturá-lo e as recompensas oferecidas a quem o matasse só aumentaram a sua fama. Admirado pela sua valentia, o facínora acabou convertido em herói. Em 1931, o jornal New York Times chegou a apresentá-lo como um Robin Hood da caatinga, que roubava dos ricos para dar aos pobres. O próprio Lampião, era tão vaidoso, a ponto de só usar perfume francês e de distribuir cartões de visita com sua foto. Gostava também, de entrar nos povoados atirando moedas.

Era, porém, um bandido sanguinário. Durante suas andanças, arrancou olhos, cortou línguas, e decepou orelhas. Castrou um homem dizendo que ele precisava engordar. Moças que usassem cabelos ou vestidos curtos ele punia marcando o rosto a ferro quente. Em Bonito de Santa Fé, em 1923, deu início ao estupro coletivo da mulher do delegado. Vinte e cinco homens participaram da violação.

Causou grandes transtornos à economia do inteior e sua história é um misto de verdades e mentiras. Lampião é odiado e idolatrado com igual intensidade, estando sua imagem viva no imaginário popular mesmo após 60 anos de sua morte. Sua influência nas artes - música, pintura, literatura e cinema - é impressionante.