quinta-feira, 27 de setembro de 2012
sábado, 22 de setembro de 2012
sábado, 15 de setembro de 2012
Forma de inocência (António Gedeão)
Ainda somos os mesmos... - Fotografia de Otávio Nogueira (deltafrut)
FORMA DE INOCÊNCIA
Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.
Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.
Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ser igual.
Movimento perpétuo (1956)
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Um bocado de humor
Como funciona uma livraria?
FREGUÊS: Bom Dia, menina!
LIVREIRA ANARQUISTA (logo desconfiada pela abordagem simpática. Que diz a experiência: o bizarro vem sempre precedido pelo aparentemente normal): Bom Dia…
FREGUÊS: Sabe-me dizer onde é que eu posso adquirir livros de instruções? Aqui não deve haver…
LIVREIRA ANARQUISTA (O que é que eu disse? Vou fazer uma tese sobre este assunto): Mas que tipo de instrução, pode ser um pouco mais preciso? Se for de condução, por exemplo, nós temos aqui alguns…
FREGUÊS: Nãonãonão, é de instruções de electrodomésticos mesmo. Aspiradores e essas coisas, ‘tá a ver? Como é chamado “livro” e isto é uma livraria pensei que pudesse vender aqui….
Fica para reflexão, porque ainda estou em convalescença e sem muita força anímica.
Mas acompanhado dessa imagem; que não podia ser mais perfeita para a ocasião festiva.
(Lido em A Livreira Anarquista)
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Desventuras de um dendrólatra (Rubem Fonseca)
Beija-flor tesoura num ipê amarelo - Fotografia de Flávio Brandão
Desventuras de um dendrólatra
É possível existir alguém que não
goste de árvore? Não falo do sujeito, índio ou não, que faz a queimada para
plantar mandioca, soja, cana-de-açúcar ou lá o que for. Esse vai direto para o
inferno, mesmo jurando para São Pedro que fazia isso para conseguir o leite das
crianças. Falo das pessoas que me cercam, que vivem na minha cidade e não têm
qualquer razão para destruir, desprezar, ou até mesmo ignorar a existência das
árvores.
O poeta polonês Czeslaw Milosz tem um poema denominado “Anelo” (ou “Desejo ardente”) que diz “não quero ser um deus ou um herói, apenas tornar-me uma árvore, crescer um longo tempo, e não ferir ninguém”.
São assim as árvores. Não ferem ninguém, e ainda dão sombra e frutos. Os druidas acreditavam que quando nos aproximávamos de uma árvore, nos acercávamos de um ser sagrado que nos podia ensinar sobre o amor e nos dar conhecimento e sabedoria. O termo druida tem origem céltica e acredita-se que seja um cognato da palavra grega drus que significa carvalho, essa árvore de grande porte.
Nosso nome, brasileiro, é proveniente de uma árvore de cerne vermelho, manchado de escuro, o pau-brasil, de onde veio o nome do nosso país. Somos, assim, parecidos com os druidas, eles se relacionam com o carvalho, nós com o pau-brasil. Apenas não acreditamos, como eles, que as árvores possam nos transmitir conhecimento ou sabedoria.
Moro numa praça onde periodicamente a Fundação Parques e Jardins planta algumas árvores, de maneira tão precária, que morrem em pouco tempo. São sustentadas por pedaços finos de bambu, que mal se mantêm em pé e não têm nenhuma proteção de metal em torno. Da última vez, plantaram oito árvores dessa maneira tosca e apenas uma sobreviveu, um ipê, que cresceu não obstante alguns mendigos bêbados, malucos ou vândalos cretinos, quebrassem constantemente os seus galhos.
Notando que ela não resistiria por muito tempo, pois a sua raiz não estava muito firme, telefonei para a Fundação Parques e Jardins. Dei o meu nome e endereço e falei da situação periclitante daquela árvore, expliquei que ela necessitava de uma proteção de metal, como as que existem na Praça Nossa Senhora da Paz. Eles prometeram uma providência. Um mês depois, como nada tivesse ocorrido, liguei novamente e disse que estava disposto a pagar pela proteção de metal. Aquilo deixou a pessoa que me atendeu meio perturbada, pediu para eu esperar na linha pois ia consultar alguém. Quando voltou disse que eles mesmos providenciariam a proteção.
Sei que a Fundação Parques e Jardins é integrada por pessoas dedicadas, que têm o maior interesse em preservar as árvores da cidade. Entretanto, a Fundação dispõe de um orçamento tão parcimonioso que tem dificuldades para atender às inúmeras solicitações que lhe fazem.
Toda noite, munido de várias garrafas grandes de plástico cheias de água, eu ia regar o ipê. Mas a sua raiz continuava bamba. Decidi solicitar o auxílio da BodyTech, uma academia de ginástica, que anunciava, com cartazes, que estava tomando conta da praça. Consegui que uma petição, assinada por vários sócios, fosse enviada à direção da academia solicitando providências em relação àquela árvore. Aconteceu alguma coisa? Nada. Aqueles cartazes da academia eram apenas propaganda.
Então decidi contratar uma pessoa para tomar conta da árvore. Esse indivíduo colocou vários quilos de terra adubada na raiz da árvore, improvisou uma proteção de madeira em torno do seu caule e borrifa, periodicamente, líquidos protetores em suas folhas.
Devido à influência do jornalista Agostinho Vieira, que tem uma coluna no GLOBO, Economia Verde, a Fundação Parques e Jardins colocou em torno da minha árvore uma proteção metálica.
Sei que existe quem diga que é uma coisa idiota fazer esse estardalhaço por causa de uma árvore. É devido a esse tipo de pensamento que uma, duas, três, milhões de árvores são incessantemente destruídas em nosso país. E isso me preocupa, quer seja um milhão de árvores, quer seja apenas uma. Sou um dendrólatra incorrigível.
Não posso deixar de citar trecho de um poema de Joyce Kilmer: “I think that I shall never see a poem lovely as a tree. [...] Poems are made by fools like me, but only God can make a tree.” (Em tradução livre: “Creio que nunca verei um poema lindo como uma árvore... Poemas são feitos por idiotas como eu, mas uma árvore só pode ser feita por Deus.”).
Essa praça, acrescento eu agora, deve ter todas as suas árvores, ou pelo menos a imensa maioria delas, destruídas pelo nocivo planejamento do metrô. A Praça Nossa Senhora da Paz em Ipanema vai sofrer a mesma violência. Realmente, como disse o poeta e filósofo alemão Schiller, “contra a estupidez humana até os deuses lutam em vão”. Mas quero deixar claro que não sou contra o metrô, como meio de transporte. Sou contra a destruição das árvores.
Rubem Fonseca
sábado, 12 de maio de 2012
Roda Vida - Teófilo Chantre
O cabo-verdiano Teófilo Chantre canta "Roda Vida" do seu disco Roda Tempo.
quinta-feira, 29 de março de 2012
O livreiro insolente (Manuel António Pina)
O proprietário à porta da livraria
Artigo de opinião sobre o fecho, ocorrido anteontem, da livraria lisboeta Poesia Incompleta, dedicada exclusivamente à venda de poesia... É uma triste notícia para os amantes da poesia.
O LIVREIRO INSOLENTE
A poesia tem justificada má fama. Chamar poeta a alguém, no Parlamento ou no Estádio da Luz, é maior insulto do que chamar intelectual a Pacheco Pereira, como fez Valentim Loureiro num dia em que se achou mais pachorrento. E temos que convir que, se "ser poeta é" o que Florbela Espanca diz que é e os Trovante andam por aí a "dizê-lo, cantando, a toda a gente", compreende-se que assim aconteça.
Imagine-se agora que, num determinado "país de poetas", um insolente livreiro decide abrir uma livraria exclusivamente dedicada à poesia. Era bem feito que lhe chamassem poeta, ou ainda menos. Foi o que aconteceu. Ao fim de mais de três anos a juntar e vender ociosidades numa obscura rua do Príncipe Real, em Lisboa, a livraria "Poesia Incompleta" fechou ontem portas. Ainda por cima sem dívidas, o que hoje é coisa ainda mais insultuoso do que "poeta".
Alguém deveria ter explicado ao jovem empreendedor Mário "Changuito" Guerra que a única forma de manter durante três anos uma livraria exclusivamente dedicada à poesia e chegar ao fim com uma pequena fortuna é começando com uma grande fortuna. Não foi, obviamente, o caso.
Anunciou o livreiro que irá doar (ou doer, não sei) os milhares de volumes que lhe sobram nas prateleiras ao omniministro Relvas. Só que, tal como "assustar um notário com um lírio branco", pôr Miguel Relvas ao alcance de Kavafy, Camões e Rilke cai decerto sob a alçada da lei antiterrorista.
Manuel António Pina no Jornal de Notícias
A notícia no Público
segunda-feira, 26 de março de 2012
Efeitos da crise e humor
Porque não podemos esquecer o humor nestes tempos, trazemos um achado que fizemos na rede, no blogue O economista português):
Fala-se nos aí de um bebe aborrecido (vejam o link) que...
.. terá dificuldade em conjugar os verbos….
… e ainda mais em pagar com as novas notas de Euro
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Intimação ao Professor Malaca (Vasco Graça Moura)
E agora a outra parte...
«Intimação ao Professor Malaca» [VGM, DN]
«Intimação ao Professor Malaca» [VGM, DN]
Num esgar de arrogância despeitada, o Prof. João Malaca Casteleiro
diz ao Expresso de sábado passado, sobre a minha tomada de posição
contra o Acordo Ortográfico: “É um autêntico disparate e uma atitude
mesquinha, revelando espírito de vingança. Quem vai pagar estes
custos?”.
Tenho pouca paciência para os trejeitos do autor de um livro
intitulado O Novo Acordo Ortográfico, que não li, não tenciono ler e
achei, de resto, perfeitamente detestável. Num gesto largo e moscovita,
deixo essa ocupação para a moleirinha ociosa do Dr. António José Seguro
que decerto muito lucrará com isso.
O professor Malaca tem-se especializado em produções de medíocre
qualidade, como o famigerado e redutor dicionário da Academia das
Ciências, abominável exercício de encolhimento do português
contemporâneo, de cuja revisão ele parece agora ter sido dispensado. Mas
não vale a pena gastar cera com ruins defuntos. E quanto a quem paga
custos e que custos, estamos conversados…
Também não vale a pena tratá-lo como interlocutor capaz quanto a
questões jurídico-constitucionais relativas à recepção na ordem interna
dos tratados e convenções internacionais. Prefiro poupá-lo aos custos
desse ingente esforço intelectual.
Mas já vale a pena intimar o professor Malaca a responder muito concretamente aos pontos seguintes:
O art.º 2.º do AO dispõe: “Os Estados signatários tomarão, através
das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com
vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário
ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e
tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias
científicas e técnicas.”
Sendo certo que o prazo inicialmente referido foi modificado, deve o
professor Malaca responder sem subterfúgios onde é que está esse
vocabulário comum.
Não existindo esse vocabulário comum, deve dizer sem subterfúgios
onde é que está a plataforma ou instância formada por instituições e
órgãos competentes dos Estados signatários, com o mandato e o objectivo
de elaborá-lo, qual o seu calendário de reuniões e qual o teor daquilo
que tenha deliberado.
Ainda quanto a este aspecto, deve responder, sempre sem subterfúgios,
quais são, em Portugal e nos outros países as instituições e órgãos
competentes para o efeito.
Caridosamente, informo-o de que não vale a pena fazer batota: em
Portugal, a instituição competente é a Academia das Ciências, o que o
Governo Sócrates esqueceu em patente violação da lei, e não o ILTEC
(Instituto de Linguística Teórica e Computacional), que é um simples
instituto universitário e não tem qualquer competência formal ou
institucional na matéria (tem financiamentos da FCT cujos montantes
podem ser objecto de indagação, já que o professor Malaca se mostra tão
preocupado com custos).
Supondo que ele respondeu correctamente às questões que antecedem,
fica intimado a explicar também como é que entende que o AO de 1990 pode
ser aplicado sem a verificação desse pressuposto.
A segunda ordem de questões prende-se com regras do próprio AO.
Diz a al. c) do n.º 1 da Base IV do AO que o c, com valor de oclusiva
velar, das sequências interiores cc (segundo c com valor de sibilante),
cç e ct, e o p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante),
pç e pt, se conservam ou eliminam “facultativamente, quando se proferem
numa pronúncia culta, quer geral quer restritamente, ou então quando
oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e
cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e
setor; ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto,
recepção e receção”.
Sendo assim, é o professor Malaca intimado a esclarecer,
imediatamente e sem subterfúgios, se a aplicação de uma ferramenta de
conversão automática que elimine na prática a possibilidade de opção
entre essas facultatividades corresponde a cumprir o AO.
E por fim é o professor Malaca intimado a identificar, localizar e
caracterizar as pronúncias cultas dos sete países signatários do AO, de
modo a que a base IV seja exequível.
Vasco Graça Moura
[Transcrição integral de crónica da autoria de Vasco Graça Moura no "Diário de Notícias" do dia 08.02.12.]
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
A voz das consoantes sem voz (Rui Tavares)
A voz das consoantes sem voz
Rui Tavares
Crónica do autor, na sua coluna no jornal "Público" de 6/02/2012, a propósito do cancelamento do Acordo Ortográfico no Centro Cultural de Belém em Lisboa, ordenado pelo seu novo presidente, Vasco Graça Moura.
Salvé, Vasco Graça Moura, insigne auctor que desafiaste o dictame do Governo e reintroduziste a escripta antiga no teu Feudo Cultural de Belém! Povo português, imitai o exemplo deste Aristides Sousa Mendes das consoantes mudas, como lhe chamou o escriptor e traductor Jorge Palinhos. Salvai as sanctas letrinhas ameaçadas pela sanha accordatária.
Mas ficai alerta, portugueses! As consoantes mudas são muitas mais do que julgais! O "c" de actual e o "p" de óptimo são apenas os últimos sobreviventes de um extermínio secular que lhes moveram os medonhos modernizadores da escripta. Há que salvar agora estas pobres victimas, até à septima geração.
Acolhei-as pois a todas, portugueses, recolhei-as agora em vossos escriptos como a inocentes ameaçados por Herodes. Se há uma consoante muda a salvar em factura, há outra em sanctidade, e esta ainda mais sancta do que aquela. O Espírito Sancto tem uma. Maria Magdalena tem outra. E Jesus Cristo? Ora! O fructo do vosso ventre, Maria, já tinha consoante muda mesmo antes de nascer. Não sabíeis? Assim Ele se conformou, e nós nos inconformaremos.
Há quem diga que o accordo ortográfico é um tractado internacional que foi já transcripto para as nossas directivas internas. Dizem que o assumpto morreu.
Balelas! Nada nem ninguém nos obrigará a cumprir obrigações internacionais. Vasco Graça Moura mostra o caminho, e eu – peccador que fui – vejo agora a luz. Depois da summa missão de salvar as consoantes mudas que resistem, e ressusciptar as que foram suppliciadas no passado, há que supplementar este grande desígnio com outras acções.
O conductor da ambulância que leva doentes oncológicos a serem tractados, pode desobedecer ao corte de subsídios de transporte fazendo o serviço gratuitamente. O quê, a austeridade, a troika? Balelas! O memorando não passa de um simples accordo internacional que o Governo quer implementar. Se Graça Moura faz lei, de graça poderão também entrar os passageiros nos transportes públicos. E se o seu chefe for um republicano e patriota daqueles que não se contentam com andar com a bandeira num pinda lapela? Pois decrete que o fim dos feriados não vale lá na repartição. E o paginador do Diário da República pode rasurar as nomeações partidárias e alguns zeros dos salários de administrador, para dar espaço às consoantes mudas. O Governo entenderá.
Néscio António Mega Ferreira que, apesar da sua gestão impeccável, foi demitido. Nada lhe succederia se, em vez de padecer de "falta de sintonia política", tivesse antes violado um accordo internacional que o Governo decidira fazer entrar em vigor meras semanas antes.
Insensato Pedro Rosa Mendes, que foi censurado por contrariar o Governo de Angola. Se contrariasse a CPLP inteira, ainda tinha crónica, e applauso da imprensa!
Longe vai Diogo Infante, demitido por não ter dinheiro para fazer teatro no Teatro Nacional. Mas João Motta, que o substituiu, pode agora imitar a Nova Estrela de Belém. Mande as restricções às malvas, gaste o que tiver a gastar, desde que mande os actores pronunciar as consoantes que agora já não são mudas mas mártires, e que nunca mais se calarão, e que orgulhosamente transformaremos em oclusivas, fricativas ou até explosivas, se nos der na bolha, numa aKção aFFirmativa e peremPtória!
Está assim lançado um movimento que fará os gregos corar de vergonha e os alemães tremerem das pernas. Vamos dar voz às consoantes sem voz! E depois, quem sabe, aos portugueses sem voz, sem trabalho e sem futuro.
In jornal "Público" de 6 de Fevereiro de 2012 :: 06/02/2012
Rui Tavares é Historiador e deputado português ao Parlamento Europeu
(Fonte: Ciberdúvidas)
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Fim do Programa de Língua e Cultura Portuguesa
"Cuando las barbas de tu vecino veas pelar..."
Medida tomada pelo XIX Governo Constitucional, com o apoio do Instituto Camões. É o fim, … em 72 países perdem os empregos 1691 docentes e 155 000 jovens e crianças portuguesas e luso-descendentes a possibilidade de estudar a sua língua e cultura materna.
A menos de um mês do final do primeiro semestre de aulas, – a 29 de Novembro – 20 docentes na suíça dos cursos de língua e cultura portuguesa no estrangeiro receberam uma comunicação – primeiro por telefone e posteriormente por via electrónica – que a 31 de Dezembro 2011 cessariam as suas funções. A indignação instalou-se na comunidade portuguesa.
Talvez numa tentativa de analisar a situação, o assessor do Sr. Secretario de estado José Cesário, foi recebido nas instalações do Consulado Geral de Portugal em Zurique pela Sra. Cônsul, no passado Domingo dia 10 de Dezembro. Um encontro organizado num secretismo quase perfeito pela célula do partido no governo em Zurique.
Quando terminada a visita, foram surpreendidos por quase duas centenas de cidadãos portugueses a residir nesta cidade. Foi o “repicar dos sinos” por via de SMS, que se deslocaram ao consulado, com a intenção de obter respostas as suas perguntas...
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
"É prohibido collocar..."
Letreiro na parede da Igreja do Carmo, Porto, anterior à reforma ortográfica de 1911, Fotografia de Manuel de Sousa.
(Vista em Bitaites, publicado em 05/01/2010, "A ortographia portugueza anda mui depravada")
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
A língua portuguesa é de borracha (Isabela Figueiredo)
A língua portuguesa é de borracha
Os portugueses, e se calhar os povos de outros idiomas, usam a sua língua como certos provincianos: ao comprar um sofá de pele nunca lhe tiram o plástico protetor, para não se estragar. O resultado é que passam a sentar-se num sofá de plástico, e, quando finalmente removem a proteção, porque entretanto lhes cheirou a mofo, a pele que tanto protegeram, apodreceu.
Todos são donos da língua e a usam e modificam a cada dia das suas vidas. As línguas não se alteram quanto à grafia, léxico, semântica ou sintaxe por mero decreto. Quando chega o decreto já elas mudaram há muito, e somos nós os responsáveis. Sentámo-nos nela, gastámo-la, remendámo-la, arranjámos formas de tornar o assento da língua mais confortável. A lei de Lavoisier aplica-se a quase tudo, mas à língua, que nem ginjas. Nela, nada se perde, e mesmo o que se ganha, transforma-se. Ninguém se preocupa com a evolução sofrida pelos diversos falares do Latim em contato com as línguas dos territórios para onde foram levados pela expansão do Império Romano, mas se uma palavra do Português europeu perde uma consoante muda, o nosso país indigna-se como não se indignaria se tivéssemos um primeiro-ministro mentiroso ou um presidente lerdo das ideias. Que estamos a imitar os brasileiros. Que nós não falamos brasileiro. E, sobretudo, que a nossa língua é melhor que a deles. Não levo as mãos à cabeça porque não posso perder tempo com dramatizações, embora goste.
Os meus alunos, que ainda há um ano davam erros ortográficos que deixarão de o ser a partir do momento em que o acordo vigore nas escolas - no próximo ano letivo, embora nos exames nacionais já tenhamos sido avisados para aceitar as duas grafias - insurgem-se contra ele. Escrevo-lhes, no quadro, redacção, e peço que leiam. Leem redação. Segundo passo: escrevo redação, e leem redação. Qual a diferença, pergunto. Bem, a diferença, é que sem a consoante muda está errado. Porquê? Porque altera. Mas a alteração prejudica a mensagem? Na leitura, não, mas na escrita fica estranho. Explico: a aquisição das regras gráficas de uma língua leva anos a fazer-se, e confere um estatuto cultural. Quem escreve de acordo com as regras pertence automaticamente a uma élite bem escrevente, com os privilégios sociais que daí advêm.. Nunca se sabe tudo, mas convém estimar o que se aprendeu, porque não foi fácil adquiri-lo, e porque mudar hábitos custa; no caso dos meus alunos, também porque a aprendizagem é recente, e estão inchados com ela: vêm agora dizer-lhes que têm de desaprender?! E, para mais, a extraordinária arrogância dos 17 anos, diferente da dos 20, dos 30 e dos 40...
Recusam-se a ler livros em Português do Brasil. Não é Português, alegam. Dou o meu melhor explicando-lhes tudo o que aprendi sobre dialetologia, regionalismos, história da língua. Provam-me que é uma língua diferente porque os brasileiros dizem que usam terno e deixam crescer a grama nos jardins. Explico que os dois vocábulos têm origem latina, e que embora constituam, hoje, para nós, arcaísmos, foram os portugueses que os levaram para o Brasil, e que ainda se encontram em todos os dicionários. Reforço que ainda há poucos dias, em Páre, Escute e Olhe, documentário de Jorge Pelicano, ouvi um velhote de Trás-os-Montes dizer que não tinha grana. Ah, que isso é porque nas aldeias são muitos atrasados, não falam bem, argumentam! Tento fazer-lhes ver que nas zonas mais isoladas os vocábulos de uso antigo se mantiveram. Mas o Brasil não é isolado. Não é agora, mas foi. Enfim, uma luta diária.
Passam a palavra, e há alunos de turmas que não me pertencem a interpelarem-me sobre como é possível eu ser professora de Português e defender o acordo ortográfico e a alteração da língua. Olham-me como se fosse uma professora sacrílega.
Entretanto, os brasileiros riem-se. Os brasileiros e todos os africanos e timorenses que usam a nossa língua, que é deles, quotidianamente, como lhes serve melhor. A língua portuguesa, felizmente, é de borracha. Eu admiro sinceramente o que fazem com ela. Parece uma grande manta de crochet que vai crescendo com malhas e desenhos diferentes, partindo de uma mesma técnica.
As alterações no léxico e na grafia de uma língua são peixe miúdo. Como é que se diz refogado no norte de Portugal e batata na Madeira? O que pode realmente afastar o português europeu do que se fala no Brasil e em África é a fonética ou a sintaxe ou ambas. E contra isso, nada a fazer. Não é impossível que o Português, no futuro, venha a divergir conforme o continente onde é falado, formando novas línguas. Por questões políticas e económicas isso é assunto que não interessa aos falantes da variante europeia. Embora a evolução linguística tenha um profundo desprezo pela política e pela economia, por enquanto, não há que temer. O Português ainda se mantém uno - embora o documentário de Jorge Pelicano, gravado em Trás-os-Montes, estivesse legendado; e se ajudava!
Isabela Figueiredo
Publicado originalmente no blogue Mundo Novo.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
V JORNADAS DE LÍNGUA PORTUGUESA E CULTURA LUSÓFONA
V JORNADAS
DE LÍNGUA PORTUGUESA E CULTURA LUSÓFONA
Mérida, Sábado 19 de novembro de 2011.
Salón de actos del Centro universitario de Mérida
9:30h – Recepção dos participantes e entrega da documentação.
10:00h – Inauguração das Jornadas.
10:30h – Conferencia de Catia Miriam Costa (Doutoranda da Universidade de Évora)
11:30h – Intervalo para café.
12:00h – Apresentação do escritor luso-caboverdiano Joaquim Arena.
13:15h – Apresentação do livro Historia de la Literatura Portuguesa, por Mª Jesús Fernández
13:30h - Apresentação do dossier de imprensa: O ensino de português na Extremadura.
14:00h – Almoço.
16:00h – Oficina de Marta Lança.
18:00h – Oficina de percussão con Iván Sanjuán.
19:00h – Encerramento e apresentação de conclusões. Assembleia da APPEX.
Inscrições /Inscripciones
Cumplimentar y enviar a / Preencher e enviar a appex.dir@gmail.com
FICHA DE INSCRIPCIÓN / FICHA DE INSCRIÇÃO |
Nombre y apellidos / Nome e apelidos: ___________________________________
_________________________________________________________________
Dirección / Endereço: _____________________________________________________________
__________________________________________________________________________________
Teléfono / Telefone: _____________ E-mail: ______________________________
Profesión / Profissão: ________________________________________________
□ Asistiré a la comida* / Assistirei ao almoço*
Etiquetas:
APPEX,
Extremadura,
Jornadas,
Língua portuguesa
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
"Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa" (Clarice Lispector)
Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
Clarice Lispector
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
"O dia em que nasci meu pai cantava" (Fernando Assis Pacheco)
O primeiro verso deste belo soneto de Fernando Assis Pacheco faz-nos recordar o camoniano "O dia em que nasci morra e pereça", mas é bem diferente. Que grande melancolia!
O dia em que nasci meu pai cantava
versos que inventam os pastores do
monte
com palavras de lã fiada fina
cordeiro lírio neve tojo fonte
esta é uma velha história de
família
para dizer como ele e eu chegámos
à raiz mais profunda do afecto
da qual nunca jamais nos separámos
nem Deus feito menino teve um pai
que o abraçasse e lhe cantasse
assim
desde a primeira hora até ao fim
fui vê-lo ao hospital quando morria
olhos parados num sorriso leve
tojo cordeiro lírio fonte neve
Lisboa, 28-XII-93
Do seu livro Respiração Assistida, publicado pela Assírio & Alvim, 2003.
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