quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O sentimento dum ocidental (Cesário Verde)



O Sentimento dum Ocidental


I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!



II

Noite Fechada

Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de <>!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.




IV

Ao gás

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

«Dó da miséria!... Compaixão de mim!...»
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!



III

Horas mortas

O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

Cesário Verde (1880)



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

VI Jornadas da APPEX - Badajoz, 17 de novembro



Desta vez, em Badajoz. No dia 17 de novembro vão decorrer as VI Jornadas de Língua Portuguesa e Cultura Lusófona, organizadas pela APPEX (Asociación del Profesorado de Portugués de Extremadura). Eis o programa:


9:00 h. – Recepción

9:30 h. – Inauguración

10:00-11:15 h.– Conferencia de Luís Miguel Leal Pinto: Calão ou palavrões? Que venha o diabo e escolha!

11:15-11:45 h. – Café y libros

11:45-14:00 h. – Las formas de tratamiento en el portugués europeo, uso y evolución. Mesa redonda. Ana Boléo y Eduardo Naharro-Macías Machado. Moderador: José Ignacio Martín Galán.

14:15-16:00 h. – Comida de inmersión

16:00-17:45 h.– Conferencia de Ana Belén García Benito: Por falar no Mendes, à porta o tendes-Hablando de Roma, por la puerta asoma. Propuestas para trabajar fraseología en la clase de PLE.

17:45-18:15 h. – Presentación del Diccionario de falsos amigos P-E/E-P por su autor, Hélder Júlio Ferreira Montero.

18:15-19:00 h. – Os Sons da Tradição. Grupo do Imaginário de Évora.
19:00-20:00 h. – Asamblea de la APPEX



9:00 h. – Receção

9:30 h. – Inauguração

10:00-11:15 h.– Conferência de Luís Miguel Leal Pinto: Calão ou palavrões? Que venha o diabo e escolha!

11:15-11:45 h. – Café e livros

11:45-14:00 h. – As formas de tratamento no Português Europeu, uso e evolução. Mesa redonda. Ana Boléo e Eduardo Naharro-Macías Machado. Coordenador: José Ignacio Martín Galán.

14:15-16:00 h. – Almoço de imersão

16:00-17:45 h.– Conferência de Ana Belén García Benito: Por falar no Mendes, à porta o tendes-Hablando de Roma, por la puerta asoma. Propostas para trabalho da fraseologia nas aulas de PLE.

17:45-18:15 h. – Apresentação do Diccionario de falsos amigos P-E/E-P pelo autor, Hélder Júlio Ferreira Montero.

18:15-19:00 h. – Os Sons da Tradição. Grupo do Imaginário de Évora.

19:00-20:00 h. – Assembleia da APPEX


Quem quiser participar nestas Jornadas é favor escrever um mail a comunicar o nome e se deseja assistir ao almoço (15 euros) para o seguinte endereço, que só será útil para estas VI Jornadas: 

badappex[arroba]gmail.com


Para quaisquer outras comunicações, dirijam-se para o endereço habitual da APPEX: 

appex.dir[arroba]gmail.com


sábado, 3 de novembro de 2012

110 aniversário de Drummond de Andrade

Fonte: Armazem do Educador

Três dias depois do 31 de outubro, mas cá está Carlos Drummond de Andrade, e está, sim, com a famosa pedra. Podemos escutar o poema em português e em mais 11 línguas.


NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Revista de Antropofagia (1928)


diaD 31.10

Carlos Drummond de Andrade: modernismo e pedra no caminho, Andrea Barros






sábado, 15 de setembro de 2012

Forma de inocência (António Gedeão)

Ainda somos os mesmos... - Fotografia de Otávio Nogueira (deltafrut)



FORMA DE INOCÊNCIA

Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ser igual.

António Gedeão


Movimento perpétuo (1956)


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Um bocado de humor



Como funciona uma livraria?

FREGUÊS: Bom Dia, menina!

LIVREIRA ANARQUISTA (logo desconfiada pela abordagem simpática. Que diz a experiência: o bizarro vem sempre precedido pelo aparentemente normal): Bom Dia…

FREGUÊS: Sabe-me dizer onde é que eu posso adquirir livros de instruções? Aqui não deve haver…

LIVREIRA ANARQUISTA (O que é que eu disse? Vou fazer uma tese sobre este assunto): Mas que tipo de instrução, pode ser um pouco mais preciso? Se for de condução, por exemplo, nós temos aqui alguns…

FREGUÊS: Nãonãonão, é de instruções de electrodomésticos mesmo. Aspiradores e essas coisas, ‘tá a ver? Como é chamado “livro” e isto é uma livraria pensei que pudesse vender aqui….


Fica para reflexão, porque ainda estou em convalescença e sem muita força anímica. Mas acompanhado dessa imagem; que não podia ser mais perfeita para a ocasião festiva.