quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

O aborto visto pelo Papa

6 comentários:

Anónimo disse...

Mas isto é um blogue ligado à língua portuguesa, não é? Então?

wellington disse...

Anónimo (uma pena que estes comentários tenham sempre que vir anónimos, mas enfim)este é um blogue ligado às variantes da LUSOfonia.Não é assim tão limitado quanto pensaste. Recebi o convite da Carmen para fazer parte e quis começar com um assunto muito em voga em Portugal, o aborto.Mas não percebi muito bem,ficaste incomodado (a) com o assunto ou a ilustração? De qualquer forma, obg pelo comentário.

Lusofilia - Lusofolia - Lusomania disse...

Como então? Este también es un blog libre.

María la Portuguesa disse...

Ouçamos a blogosfera:

Entrevista  Vasco Freire - Associação de
Médicos pela escolha


... MLS: Qual é a vossa estimativa para o número de abortos praticados em Portugal, se é que existe essa estatística?
VF: Não existem dados muito concretos. Nós sabemos que a estimativa pode variar entre vinte mil a quarenta mil abortos por ano. Sabemos, por exemplo, através de dados de clínicas espanholas, que apenas numa clínica foram feitos no último ano quatro mil abortos por mulheres portuguesas e que, por exemplo, em Madrid quinze porcento (15%) das mulheres que fazem abortos são portuguesas...

O António Maria

Comecemos pelo princípio: a proposta de referendo aprovada pela Assembleia da República e a que seremos muito provavelmente chamados a votar em 2007 não é sobre a liberalização do aborto, mas apenas sobre a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas de gestação. Não sei o que levou o PS a baixar o prazo inicial de 12 semanas.

Apesar de estar em causa um processo de decisão política tipicamente democrático, a hierarquia católica não se coibe de intrometer-se onde não é chamada. Este não é definitivamente o seu reino, mas a velha e reaccionária Igreja portuguesa (através da sua famosa Conferência Episcopal) ameaça uma vez mais abusar das suas prerrogativas e tribunas dominicais para coagir os seus fieis e promover o escândalo em volta de um tema que só à democracia compete decidir...


Rititi

OS DO NÃO

Que a vida vos trate bem. Oxalá nunca violem a vossa filha, que uma ecografia não revele um sindroma de down, que nunca vos abandone o homem, o emprego e a sorte. Oxalá que no vosso caminho não encontrem deficiências, malformações, enganos, acidentes, solidões, dores que nunca imaginaram que vos rebentaria dessa maneira tão monstruosa e não sabem porque razão tiveram que ser vocês a receber a má carta. Oxalá que a vida, de que tanto falam, não vos parta pela metade, vos deixe órfãos de referências e pensamentos abstractos; oxalá nunca sejam postos à prova e descubram que, no fundo, não há livros que vos livrem da intransigência de estar vivos. Porque a vida, que não precisa de maiúsculas nem de demagogias para ser apresentada, defende-se sozinha. E não é o que está num útero. A vida está cá fora e aprende-se dela vivendo-a.

Blasfemia

A pedido da mulher*>
Estou farta. Farta das fotografias dos embriões. Farta de imagens de marquesas de obstetrícia. Farta de ver as mulheres, como eu, transformadas num corpo-aquário com imagens de fetos em diversas fases de desenvolvimento. Agora para completar o album até já temos fotos de fetos elefantes, fetos cães e outros fetos mas sempre fetos no vente materno. Tanto ventre, senhores!

Estou farta das barrigas pintadas com o 'aqui mando eu' devidamente enquadradas por uns lencinhos palestinianos e outra imaginária de gosto e efeitos duvidosos. E, mais do que farta, nauseada com a conversa sobre se as mulheres devem ou não ser condenadas.###

Em Portugal, no final de 2006, eu e outros milhões de portuguesas temos o inegável direito de sermos poupadas a isto. O país mudou. Os portugueses mudaram. Felizmente já não somos um povo vestido de escuro porque os lutos eram eternos e porque o escuro, sobretudo aquele maldito cinzento, BI da nossa pobreza, ficava bem com tudo, servia para todas as estações e não dava nas vistas. Tudo - ou quase - mudou mas o retrato das mulheres não. É certo que podemos exercer todas as profissões e cargos. Quanto às profissões exercêmo-las. Quanto aos cargos vamos indo. Claro que podemos estudar o que quisermos. E não só estudamos como estudamos mais do que os homens. Mas lá no fundo, debaixo do verniz sobre a igualdade e as questões de género, mantém-se vivo aquele medo profundo e ancestral perante esse corpo excessivamente poderoso que é o das mulheres.
A gravidez é o reverso positivo e exterior duma moeda onde constam matérias mais inquietantes como a menstruação ou a menopausa. Expressões modernas como «tratamentos de compensação» - aplicadas à menopausa - ou o popular «limparam-na», usado como sinónimo da histerectomia, confirmam como se mantém latente essa concepção das mulheres como um corpo não só desequilibrado mas também conspícuo e imprevisível. Se a maternidade é aquilo que redime as mulheres dessa espécie de poder biológico excessivo, o aborto é aquilo que o reforça.

Nestas coisas não mudámos muito. Sobre a feiticeira estendemos o perfil doce da Virgem grávida. Mas a feiticeira continua lá. Sobre os corpos domesticados a regimes e ginásticas continua subjacente o espectro da megera. E ao menor pretexto esses fantasmas de sempre voltam a assombrar-nos os dias. Se se reparar a discussão sobre a interrupção voluntária da gravidez é, em Portugal, uma discussão sobre o poder das mulheres. O debate em torno do aborto é exclusivamente sobre se o aborto pode ser feito 'a pedido da mulher'. Afinal a conselho ou ordem dos médicos realizam-se, em Portugal, interrupções de gravidez muito para lá das dez semanas. Sobre essas interrupções, sobre a forma como são decididas, sobre os meses que têm muitos desses fetos no momento do aborto não se fala, na medida em que esses abortos não são apresentados como o resultado da decisão da mulher mas sim como uma questão clínica.

O embróglio pantanoso para que nos arrastou o anterior referendo teve consequências gravíssimas. E uma dessas consequências foi precisamente legitimar uma espécie de neo-eugenismo: oficialmente não se aceita a interrupção da gravidez até às dez semanas «a pedido da mulher» mas fecham-se os olhos perante aquelas situações em que oficialmente a mulher tem direito a abortar, nomeadamente nos casos das malformações no feto, e em que se aborta muito, mas muito mesmo, para lá das dez semanas.

Por outro lado, a clivagem política desejada por alguns grupos, quer do Sim quer do Não, faz com que a interrupção voluntária da gravidez não se liberte duma espécie de ambiência neo-realista - operárias desempregadas e abandonadas, hemorragias, salas de partos, cadeias... ? que lhes serve da pano de fundo perfeito para as suas teses. Conviria lembrar que, desde que detectada cedo, a gravidez pode ser interrompida através de via medicamentosa e que não é tanto a pobreza que leva as mulheres a decidir ou não manter uma gravidez mas sim o facto de entenderem que essa gravidez se adequa ou não aos seus planos de vida.
Mas entre as consequências mais graves do não-resultado do anterior referendo conta-se ainda a recuperação dum argumentário sobre as mulheres que há muito julgávamos definitivamente ultrapassado. Refiro-me concretamente ao discurso vexatório sobre 'o aborto que é crime e as mulheres que não devem ser presas'. É claro que as mulheres podem e devem ser presas se cometerem crimes para os quais esteja prevista essa pena. As mulheres são iguais aos homens na condição de rés pela mesmíssima razão que são iguais aos homens na condição de juízes. Aceitar que alguém seja ou não condenado em função do seu sexo é tão atentatório da nossa dignidade quanto discutir essa possibilidade em função da raça ou da religião. Achar-se-ia normal discutir se um réu deve ser ou não condenado por ser preto ou branco? Católico ou hindu?... Certamente que não. Então como se aceita discutir nestes termos quando o objecto da discussão são as mulheres?
Por tudo isto votarei Sim a 11 de Fevereiro. Mas não considero que o caso fique aqui encerrado. Em política como na vida as responsabilidades devem ser pedidas a quem de direito. E esta situação aberrante em que nos encontramos tem responsáveis. São eles António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa. Sobrepondo-se à Assembleia da República estes dois líderes acordaram na realização dum referendo que não só não resolveu problema algum como criou vários. Algum dia quer um quer outro terão de ser confrontados com isto.

*PÚBLICO, 2 de Dezembro

Estou farta. Farta das fotografias dos embriões. Farta de imagens de marquesas de obstetrícia. Farta de ver as mulheres, como eu, transformadas num corpo-aquário com imagens de fetos em diversas fases de desenvolvimento. Agora para completar o album até já temos fotos de fetos elefantes, fetos cães e outros fetos mas sempre fetos no vente materno. Tanto ventre, senhores!
Estou farta das barrigas pintadas com o 'aqui mando eu' devidamente enquadradas por uns lencinhos palestinianos e outra imaginária de gosto e efeitos duvidosos. E, mais do que farta, nauseada com a conversa sobre se as mulheres devem ou não ser condenadas...

Lutas Livres

Jaime Nogueira Pinto (um dos poucos senhores de Direita que intelectualmente aprecio e respeito) difere a Direita da Esquerda no modo como ambas as vertentes política olham para o ser humano. A Direita acredita que o ser humano é naturalmente mau e necessita de regras para viver em sociedade a Esquerda acredita que o ser humano é naturalmente bom e é a sociedade e as suas regras que o corrompe. A Direita em Potrugal é pelo Não, uma parte por motives religiosos, a outra porque acredita que as mulheres são naturalmente levianas e fariam abortos ao desbarato como modo de contracepção o que seria uma perspectiva de imoralidade extrema. Não acredito que alguém seja contra a vida neste campo de batalha no debate do Aborto. Eu sou pelo Sim e pela vida, de Esquerda claro, acredito que uma mulher quando recorre ao Aborto o faz num acto de desespero e que o Aborto em Portugal é uma realidade. Acredito que um aborto legal vem criar locais onde mulheres em desespero podem acorrer, locais onde se podem encontrar grupos para o apoio da natalidade, gabinetes de planeamento familiar, organismos que ajudem no desepero da mulher para uma solução que pode ou não passar pelo aborto. Acredito que tal seja possível caso o Sim ganhe, espero que os do Não apoiem as mulheres mesmo se perderem, ao contrário do que se passa nos EUA, onde os pro-life gastam recursos humanos e financeiros em manifestações contra os locais de aborto e contra as mulheres deseperadas em vez de lhes dar alternativas com alguma viabilidade. Mas isso não é de Direita...

Pedro Luis disse...

Para o Wellington:

Desculpa a anonimia, desta vez assino. Não quero que penses que foi por eu ser contra o assunto. O meu senão ao teu post não tinha a ver com o assunto, podes crer, mas com a língua empregada. Eu pensava que neste blogue cabiam todos os assuntos, literários ou não, mas sempre através da língua portuguesa.
Eu acho que a questão do aborto tem a ver com cada pessoa e a Igreja não tem nada a dizer com o que uma mulher decidir se chega para ela esse momento tão difícil.
Cumprimentos, Well.

Wellington Almeida disse...

Ola, Luis obg por assinares desta vez o teu comentario. Realmente,vendo deste modo,tens uma certa razão. Mas acho importante não fundamentalizar as coisas e fazer irónia com este cinzentismo a que estamos habituados. De qualquer forma, obrigado na mesma. Um abraço.